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As tresdestinações aplicáveis pelo uso da técnica hermenêutica jurídica constitucional historicista-biográfica, pela 

pré compreensão praxiológica.






ADAM TELLES DE MORAES

Habilitação Nacional de Advogado - OAB 

(Código da credencial: 155744/RJ) e Professional development certificate in Global Business Management - Massachusetts Institute of Business - MIB (Código de credencial 7F40D3D8-0AF7-4F30-AFFE-38B39EC7ECD3).




Resumo

O presente artigo científico jurídico investiga, em profundidade, a violação hermenêutica estrutural decorrente da ausência de uma pré-compreensão praxiológica na interpretação e aplicação das normas legais contemporâneas. Com foco central nos incentivos perversos gerados pela subsunção literal de institutos protetivos — notadamente a garantia do bem de família aplicada a patrimônios de alto luxo —, o estudo demonstra como o descompasso entre a exegese formal e a realidade econômica fomenta práticas sucessórias abusivas e de blindagem patrimonial. Conclui-se que tal hermenêutica engessada desestimula o mercado de crédito, mitiga a credibilidade social das interações microeconômicas e, em escala macro, reduz a circulação de capital financeiro e o Produto Interno Bruto (PIB), mantendo o corpo social em um ciclo de subdesenvolvimento. A pesquisa caracteriza esse fenômeno como uma "tredestinação ontológica", que resulta em uma lacuna material de profunda injustiça. Para superar esse quadro, sustenta-se a urgência dogmática de reconhecer a derrotabilidade (defeasibility) dessas interpretações puramente gramaticais, defendendo a nulidade de decisões proferidas sem a devida adequação proporcional de suas consequências fáticas. O marco teórico propõe a adoção da técnica hermenêutica constitucional historicista-biográfica para desarticular o chamado "garantismo hiperbólico monocular" e o "ativismo judicial formal", evidenciando que a aplicação do Direito deve fundar-se em critérios ético-deontológicos e argumentativos. Somente sob esse prisma integrativo torna-se possível harmonizar a razão prática (aristotelismo) e o dever moral (neokantismo) na concretização de uma justiça material efetiva.



Palavras-Chave: Pré-compreensão praxiológica; Tredestinação ontológica; Derrotabilidade da norma; Garantismo hiperbólico monocular; Ativismo judicial formal.




Abstract


This scientific legal paper investigates, in depth, the structural hermeneutic violation resulting from the absence of a praxeological pre-understanding in the interpretation and application of contemporary legal norms. Focusing primarily on the perverse incentives generated by the literal subsumption of protective institutes—notably the family home exemption applied to high-luxury real estate—the study demonstrates how the disconnect between formal exegesis and economic reality fosters abusive succession practices and asset shielding. It is concluded that such a rigid hermeneutics discourages the credit market, mitigates the social credibility of microeconomic interactions, and, on a macro scale, reduces the circulation of financial capital and the Gross Domestic Product (GDP), trapping the social body in a cycle of underdevelopment. The research characterizes this phenomenon as an "ontological misdirection," which results in a material gap of profound injustice. To overcome this framework, the study argues for the dogmatic urgency of recognizing the defeasibility of these purely grammatical interpretations, advocating for the nullity of decisions rendered without the due proportional adequacy of their factual consequences. The theoretical framework proposes the adoption of the historicist-biographical constitutional hermeneutic technique to dismantle the so-called "hyperbolic monocular garantism" and "formal judicial activism," demonstrating that the application of the Law must be founded on ethical-deontological and argumentative criteria. Only under this integrative prism does it become possible to harmonize practical reason (Aristotelianism) and moral duty (Neo-Kantianism) in the realization of effective material justice.



Keywords: Praxeological pre-understanding; Ontological misdirection; Defeasibility of the norm; Hyperbolic monocular garantism; Formal judicial activism.




1. O Desafio Epistemológico da Hermenêutica Pós-Positivista


O Direito, compreendido como um ecossistema complexo de regulação da conduta humana, não opera de forma isolada das dinâmicas sociais, econômicas e morais que permeiam a sociedade. No estágio atual de evolução da teoria do direito, marcado pelo advento do pós-positivismo e pela constitucionalização do direito civil1, a atuação do operador jurídico depara-se com a necessidade imperativa de superar o formalismo exegético clássico. A subsunção silogística tradicional, que marcou o positivismo jurídico do século XIX e início do século XX, mostrou-se insuficiente para lidar com a complexidade valorativa e econômica dos conflitos na Era da Informação3.

A problemática central deste estudo reside na constatação de que a interpretação literal e descontextualizada de normas jurídicas protetivas tem gerado violações severas ao escopo ontológico dos próprios institutos tutelados4. Ao se ignorar a pré-compreensão praxiológica — ou seja, a compreensão prévia de como a ação humana reage aos incentivos normativos no mundo real —, o aplicador do direito acaba por chancelar decisões que, embora formalmente amparadas pela letra fria da lei, produzem resultados materialmente absurdos, desproporcionais e economicamente destrutivos4.

O presente artigo investiga, de modo exaustivo, o fenômeno das tredestinações aplicáveis pelo uso inadequado das técnicas interpretativas e defende a adoção da técnica hermenêutica jurídica constitucional historicista-biográfica. Através de um marco teórico que conjuga a Praxiologia (Escola Austríaca), a Teoria da Argumentação e Derrotabilidade (Defeasibility), e a Ética Deontológica, busca-se demonstrar que a utilidade e a justiça material de uma decisão judicial dependem intrinsecamente da ponderação de seus impactos micro e macroeconômicos. Aborda-se, com especial ênfase, a distorção da proteção ao bem de família, a instrumentalização do garantismo hiperbólico monocular e as falácias inerentes ao ativismo judicial formal. 

O objetivo é fornecer bases sólidas para que o órgão julgador exerça sua competência com a devida adequação proporcional, assegurando a máxima efetividade da justiça e o desenvolvimento econômico-social.



2. A Pré-Compreensão Praxiológica e a Estrutura de Incentivos Normativos


A praxiologia, fundamentada filosoficamente e economicamente por Ludwig von Mises, é a ciência da ação humana8. Seu axioma central dita que toda ação humana é intencional e visa substituir um estado atual de coisas por outro considerado mais satisfatório pelo agente10. Transpondo essa lente epistemológica para o campo jurídico, o Direito passa a ser compreendido não apenas como um conjunto estático de regras sancionatórias, mas como uma matriz dinâmica de incentivos e desincentivos que moldam, orientam e condicionam as decisões dos indivíduos no tecido social e no mercado7.

A pré-compreensão praxiológica adequada exige que o intérprete da norma pondere, antes mesmo de cristalizar seu raciocínio subsuntivo, quais serão os efeitos práticos de sua decisão no comportamento futuro dos atores sociais. Trata-se de antecipar o "risco moral" (moral hazard) e os estímulos comportamentais subjacentes à tutela judicial4.


2.1 A Aplicação da Norma e os Efeitos Colaterais Involuntários


Quando o Poder Judiciário aplica uma norma protetiva baseando-se unicamente em sua semântica gramatical, sem perquirir a razão prática (a ratio legis conectada à realidade econômica), ele invariavelmente produz externalidades negativas. A violação da pré-compreensão praxiológica adequada à interpretação da norma conduz à geração de incentivos perversos, pois regras formais do jogo acabam desequilibrando materialmente os resultados reais4.



Variável Analítica

Interpretação Literal Formalista

Interpretação com Pré-Compreensão Praxiológica

Foco Hermenêutico

Semântica estrita e subsunção mecânica do fato à norma3.

Finalidade ontológica da norma e impactos econômico-comportamentais4.

Tratamento de Incentivos

Indiferente; o julgador considera os efeitos externos irrelevantes para o Direito.

Central; a decisão judicial educa e molda futuras interações sociais e contratuais.

Risco Moral

Alto; oportunistas utilizam brechas textuais para subverter a finalidade do instituto5.

Baixo; o bloqueio de práticas abusivas desencoraja comportamentos oportunistas13.

Consequência Sistêmica

Insegurança material, fomento à inadimplência e distorção econômica4.

Estabilidade institucional, fomento ao crédito e proteção da boa-fé objetiva7.



A tabela acima ilustra o abismo dogmático entre a postura positivista exegética e a abordagem pós-positivista praxiológica. A compreensão literal positivista jurídica formal clássica para definir conceitos ou efeitos jurídicos revela-se um absoluto equívoco se não levar em consideração a essência da natureza de fato dos objetos e sua adequação proporcional4.



3. A Distorção do Bem de Família e os Incentivos Sucessórios Perversos


Um laboratório perfeito para observar os desdobramentos nefastos da ausência de pré-compreensão praxiológica encontra-se na aplicação da Lei nº 8.009/1990, que disciplina a impenhorabilidade do bem de família. O instituto foi historicamente concebido com uma nobre finalidade ontológica: garantir o mínimo existencial, o direito fundamental à moradia e resguardar a entidade familiar de ser reduzida ao desabrigo em virtude do superendividamento5. Trata-se de uma concretização da dignidade da pessoa humana aplicável às relações patrimoniais16.

Contudo, a literalidade do texto normativo (Artigos 1º e 3º) não estabelece um teto financeiro para o imóvel protegido. Em jurisprudência consolidada, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) vem reafirmando, de maneira reiterada (a exemplo do AREsp 2.791.033), que a proteção conferida ao bem de família não pode ser relativizada ou afastada com base exclusivamente no alto valor de mercado ou no padrão de luxo do imóvel, sob o argumento de que as exceções à impenhorabilidade constituem um rol taxativo (numerus clausus)15.


3.1 A Anatomia do Absurdo: Blindagem Patrimonial e Ociosidade Induzida


Essa hermenêutica restritiva ao texto, mas extensiva nos efeitos, incentiva, indiretamente, práticas sucessórias e de planejamento patrimonial que beiram o absurdo. Conforme denunciado na premissa deste artigo, o sistema jurídico passa a permitir a liquidação de patrimônios elevadíssimos por pessoas que, na iminência da morte ou do colapso financeiro, realizam a aquisição de um único bem de altíssimo luxo4.

Ao concretizar esse arranjo, o devedor garante fontes de renda indiretas (frequentemente dissimuladas ou em nome de terceiros) para o custeio do bem. Como corolário dessa arquitetura jurídica, herdeiros que muitas vezes não declaram renda, não geram valor produtivo e encontram-se à marginalidade do mercado de trabalho formal, são estimulados a permanecer nessa condição. Eles são literalmente fomentados a habitar um bem suntuoso, incompatível com o poder aquisitivo real que produzem e ostentam, ancorados na premissa irrefutável (para a jurisprudência formalista) de que aquele é, literalmente, o "único bem que possuem" e que serve de "moradia para sua família"4.


Isso gera uma assimetria gritante. Os endividamentos desses indivíduos não podem ser satisfeitos. A Justiça impede que o imóvel de luxo seja leiloado para que a dívida seja quitada, o que permitiria, com o saldo remanescente, que os devedores adquirissem um imóvel mais condizente com sua verdadeira realidade financeira4. O Poder Judiciário, amarrado por uma epistemologia formalista, nega vigência à análise econômica do direito e permite a consolidação da injustiça4.


3.2 Consequências Macroeconômicas: Mitigação do Crédito e Retração do PIB


As interpretações meramente gramaticais falham rotundamente por não levarem em consideração a necessária compreensão dos impactos econômicos da decisão judicial. O critério de utilidade de uma decisão não pode ser medido apenas pela menor onerosidade ao executado, como dispõe o aspecto processual imediato, mas deve abranger, de maneira imperiosa, a máxima efetividade da execução do crédito. O credor detém o legítimo direito fundamental à propriedade e de receber de volta aquilo que lhe pertence4.

Quando o Estado chancela a impenhorabilidade de bens suntuosos em detrimento de credores de boa-fé, forma-se um precedente sinalizador. 

Os agentes econômicos internalizam essa regra do jogo. Sabendo que grandes devedores podem blindar fortunas em imóveis de luxo sob o véu do bem de família, os credores (instituições financeiras, fornecedores, prestadores de serviços) perdem o estímulo para realizar negócios4.

Essa retração mitiga a credibilidade social das interações microeconômicas. A consequência praxiológica direta é a elevação do spread bancário, a exigência de garantias cada vez mais draconianas e a diminuição drástica na circulação de bens e serviços. A economia real sofre. Gera-se menos capital financeiro, físico e humano para a sociedade como um todo; diminui-se o poder aquisitivo em circulação, contraindo o mercado interno e impactando negativamente o Produto Interno Bruto (PIB) nacional4. Mantêm-se, assim, os índices macroeconômicos em patamares especulativos e desacreditados, perpetuando o país em uma condição subdesenvolvida4. Trata-se do alto custo de se ignorar a economia no processo decisório.



4. Tredestinação Ontológica e a Lacuna Material Efetiva


A configuração fática e jurídica delineada acima conduz a uma patologia hermenêutica específica, que conceituamos neste trabalho como Tredestinação Ontológica4. Na dogmática do direito administrativo, a tredestinação indica o desvio de finalidade (quando um bem desapropriado para um fim público é destinado a outro fim, lícito ou ilícito). Adaptando o conceito para a ontologia da norma jurídica, a tredestinação ontológica ocorre quando o aplicador do direito se utiliza da literalidade de um instituto para conferir-lhe uma destinação que subverte por completo a sua própria essência (seu ser, sua ontologia).

O instituto do bem de família propõe-se, ontologicamente, a salvaguardar a sobrevivência, proteger a dignidade e evitar a miséria. Ao ser utilizado para tutelar a ostentação, a riqueza indevidamente acumulada e o calote institucionalizado, o instituto sofre uma tredestinação em sua própria natureza. Ele deixa de ser um escudo dos vulneráveis e passa a ser uma arma dos especuladores4.

A interpretação literal do dispositivo legal, dada a subsunção mecânica às peculiaridades do caso concreto (imóvel de luxo), caracteriza uma verdadeira Lacuna Ontológica. Embora não haja lacuna textual (a norma existe e é lida), há um vazio de sentido de justiça material. Essa lacuna ontológica consubstancia-se a título de Injustiça Material Efetiva, violando frontalmente o escopo de efetividade jurisdicional e o escopo pedagógico da tutela jurídica estatal. A mensagem pedagógica que o Estado passa à sociedade, ao julgar casos nesses moldes, é a de que o enriquecimento à custa alheia, desde que blindado em tijolos suntuosos, é um comportamento tolerado e protegido pelo Direito4.



5. A Necessidade de Reconhecimento da Derrotabilidade (Defeasibility)


Para corrigir tamanha anomalia sistêmica, a teoria geral do Direito e a filosofia jurídica contemporânea oferecem um instrumento sofisticado: a Derrotabilidade (ou defeasibility), originária da teoria analítica de H.L.A. Hart e amplamente desenvolvida no raciocínio jurídico por Neil MacCormick21.

O conceito de derrotabilidade fundamenta-se na premissa de que as normas jurídicas, dada a textura aberta da linguagem e a impossibilidade do legislador prever todas as particularidades fáticas da complexidade social, comportam exceções implícitas13. Uma regra é tida como "derrotável" quando, mesmo estando preenchidos todos os seus pressupostos lógicos e formais (condição prima facie), a sua aplicação ao caso concreto gera um resultado extremante injusto ou diretamente contrário à própria finalidade que justificou a criação da norma22.


5.1 Adequação Proporcional e a Nulidade da Interpretação Literal


Diante do cenário do bem de família suntuoso, resta urgente a necessidade de reconhecer a derrotabilidade dessa interpretação pautada por mera compreensão literal4. A regra da impenhorabilidade irrestrita deve ser "derrotada" (afastada episódica e excepcionalmente no caso concreto) para ceder espaço aos princípios da boa-fé, da vedação ao enriquecimento sem causa, do direito de propriedade do credor e da eficiência econômica.

O reconhecimento dessa derrotabilidade implica, processualmente, na nulidade da decisão de instâncias inferiores que tenham se limitado ao exame gramatical, obrigando a devolução ao órgão julgador competente para a prolação de uma nova decisão4. Esta nova decisão deve pautar-se pelo uso de uma interpretação que leve em consideração a essência teleológica do instituto jurídico, aplicando a devida adequação proporcional de suas consequências sob a perspectiva praxiológica2.

A praxiologia exige que o magistrado calibre a decisão de modo que as razões práticas econômicas não desestimulem os credores, evitando o colapso do mercado. Não se pode admitir a manutenção de uma "garantia hiperbólica monocular" (conceito que será aprofundado a seguir) em favor de beneficiários que ostentam luxo às expensas da ruína de outrem4.



6. O Garantismo Hiperbólico Monocular e a Crítica ao Visão Unilateral


Mesmo ciente de que esse fenômeno cujo desenvolvimento teve na autoria inaugural por Luigui Ferrejoli com foco exclusivo de seus estudos para o Direito Processual Penal, evidente devido a influência da hermenêutica jurídica constitucional, com a consolidação das práticas legislativas e das atuais orientações gerais das nossas épocas contemporâneas, seja no mundo, no Ocidente e no Brasil, em especial com a atual Jurisdição Constitucional, as tendências das jurisprudências das Cortes Superiores nacionais e o desenvolvimento doutrinário meteórico pelas Jornadas de Direito Constitucionais nos demais ramos, tanto ciência como ordenamento no Direito Brasileiro contemporâneo, por meio da Constitucionalização do Direito como um todo, inevitável não reconhecer a prática do “garantismo” não apenas como penal, mas como um fenômeno inerente aos demais ramos dos Direitos Processuais atuais, indo muito além do in dubio pro reu e se consolidando como mais uma maneira de compreendermos e aplicarmos o “Devido Processo Legal”no seu sentido substancial.

Entretanto, o emprego cego de garantias processuais e materiais, de forma a privilegiar desproporcionalmente o polo passivo da demanda (seja o réu em processo penal ou o executado no cível), ignorando os direitos das vítimas, dos credores e de toda a sociedade, tem sido agudamente criticado pela doutrina moderna sob a alcunha de Garantismo Hiperbólico Monocular. 

A expressão, cunhada pelo jurista Douglas Fischer em sua crítica aos desvirtuamentos da teoria garantista de Luigi Ferrajoli (Garantismo Penal Integral), descreve com precisão a patologia hermenêutica que enxerga a lide por um único prisma, ignorando os princípios da proporcionalidade e a proibição de proteção deficiente por parte do Estado27.

Transplantando o conceito para as searas cível e patrimonial, o garantismo hiperbólico monocular manifesta-se quando o julgador observa exclusivamente a suposta vulnerabilidade do devedor, aplicando a ele uma couraça impenetrável de garantias, mas mantendo-se inteiramente cego aos direitos fundamentais de propriedade, livre iniciativa e devido processo legal material dos credores4. Tal interpretação cria um vácuo de responsabilização e fomenta uma "interpretação garantista hiperbólica monocular nula"4.

A presunção de vulnerabilidade do polo executado, embora existente e válida pela legislação e por parte da jurisprudência pátria, não é de natureza absoluta (jure et de jure), mas eminentemente relativa (juris tantum)4. Ela deve depender intrinsecamente das peculiaridades circunstanciais do caso concreto. Proteger a moradia da família de classe média que perdeu o emprego é um ato de garantismo integral e constitucional; proteger a mansão de quem esvaziou as contas bancárias da própria empresa para fraudar credores é garantismo hiperbólico monocular5.


7. A Tensão Hermenêutica: Utilitarismo Estrito vs. Ética Deontológica Argumentativa


A defesa incondicional da praxiologia e da análise dos resultados não significa, no entanto, a adesão a um utilitarismo cego e irrestrito. Pelo contrário, a pré-compreensão praxiológica funda-se em um substrato profundamente ético.

Tome-se como paradigma analítico a indagação proposta no escopo de atuação da Defensoria Pública em sede de política criminal e segurança pública4: Seria "útil" matar um bandido à margem da lei?

Sob uma perspectiva utilitária em sentido estrito, focada exclusivamente na supressão fática do risco imediato e na economia de recursos estatais, a resposta poderia ser cinicamente afirmativa4. No entanto, é exatamente por isso que o utilitarismo não pode ser considerado uma espécie autossuficiente de ética para um Estado Democrático de Direito. 

O caso da eliminação extrajudicial é a prova ontológica da falha utilitarista. A represália policial deflagrada sem ordem judicial ou executiva, mesmo quando provocada pela necessidade aparente de manter a lei e a ordem, pode até parecer "útil" de um ponto de vista factualmente prático de curtíssimo prazo, mas não é praxiológico e nem lícito tirar a vida de um indivíduo sem que estejam configurados os estritos pressupostos da legítima defesa específica ao caso concreto3.

A verdadeira praxiologia, diferentemente do utilitarismo rasteiro, incorpora o horizonte temporal estendido e o respeito às regras como vetores de coordenação social duradoura6. É nesse ponto que o Critério Ético Deontológico (ou ético-argumentativo) se sobrepõe como vetor hermenêutico fundamental4. A Defensoria Pública age com indiscutível acerto ao rechaçar abordagens utilitaristas que aniquilam o devido processo legal4. A deontologia neokantiana ensina que o ser humano (e seus direitos processuais) é um fim em si mesmo, não podendo ser utilizado como mero instrumento utilitário, mesmo em nome da segurança coletiva. As regras de justiça e a moral argumentativa descaracterizam a utilidade marginal da violência estatal desmedida, impondo balizas incontornáveis.


Portanto, a exigência de uma análise praxiológica e econômica na aplicação do bem de família não é uma defesa do utilitarismo em detrimento dos direitos sociais. Pelo contrário, é a aplicação do critério ético deontológico argumentativo ao campo econômico: assim como o Estado não pode violar a vida em nome da utilidade punitiva, o devedor não pode usar o escudo da moradia para perpetrar fraudes, pois isso viola a ética e a boa-fé que devem guiar o Direito4. Aristotélicos (teleologia/razão prática) e neokantianos (deontologia/dever ético) convergem harmonicamente na busca por um ordenamento efetivo e justo3.


8. Ativismo Judicial Formal (“Ativismo Judicial Hiperbólico’) e a Tredestinação Ideológica Indireta


Um dos maiores desafios à escorreita aplicação da técnica hermenêutica pós-positivista reside no mau uso da delegação conceitual por parte dos tribunais. Faz-se mister distinguir a legítima conformação de conceitos jurídicos indetermináveis a priori pelo legislador do reprovável fenômeno do ativismo judicial formal4 (Lembramos que em outros estudos próprios de nossas iniciativas, criticamos a longa data a referida prática na qual, a mero título de heurística, passamos a denominar como “Ativismo Judicial Hiperbólico”. Todavia, como estamos abordando a análise de institutos com denominações análogas no presente estudo, prosseguiremos a análise da referida prática com a denominação já consolidado na comunidade jurídica nacional atual).


8.1 Técnica Metanormativa vs. Subversão Conceitual


Na complexidade legislativa contemporânea, o legislador frequentemente emprega uma técnica metanormativa legislativa processual. Consiste na criação de microssistemas alicerçados em conceitos jurídicos abertos (cláusulas gerais), imputando ao operador do direito o encargo de preencher o conteúdo da norma à luz das contingências do caso concreto3. Tal modelo convoca o hermeneuta a atuar como um concretizador de mandamentos de otimização, promovendo uma carga axiológica finalística2. Essa conceituação indeterminística, ditada pela lei, é legítima e utilíssima praxiologicamente, pois advém da autorização direta do legislador democrático4.


Exemplo eloquente e louvável de aplicação dessa técnica metanormativa ocorreu recentemente no julgamento do REsp 2.226.610, em que o STJ debruçou-se sobre a definição de "produto essencial" (Art. 18, § 3º, do Código de Defesa do Consumidor). Afastando a tentação populista de taxar, de forma generalizada e automática, todos os aparelhos celulares como essenciais, o Tribunal, em reverência à praxiologia, consolidou que a essencialidade deve ser apurada à luz das circunstâncias fáticas, avaliando o real impacto da privação na dignidade e cotidiano de cada consumidor32. A decisão evitou a elevação irrestrita de custos de garantia que, invariavelmente, seriam repassados aos consumidores33.

Todavia, existe o reverso da medalha. O ativismo judicial formal opera no sentido diametralmente oposto: ele se manifesta quando o órgão julgador defronta-se com conceitos jurídicos perfeitamente determinados ou determináveis pelo regime jurídico ou pelas partes (autotutela/negócios), e decide, arbitrariamente, declará-los "indeterminados" apenas para atrair para si o poder epistemológico e ontológico de redefini-los4. O juiz relega ao limbo o que o legislador clarificou, visando aplicar o seu viés ideológico particular.


Isso não é útil do ponto de vista do interesse público primário. O conceito passa a ser definido exclusivamente sob a ótica de uma autoridade isolada, cujos critérios subjetivos são coletivizados de forma discriminatória4. 


A delegação abusiva de técnicas hermenêuticas ao casuísmo despótico configura uma autêntica Tredestinação Ideológica Indireta4. 


O magistrado, escudando-se no manto de um suposto ativismo benévolo, subverte a ontologia da lei para adequá-la aos seus preconceitos teóricos. Tal prática viola a constitucionalização do direito e deve ser veementemente rechaçada e derrotada à luz do ordenamento jurídico interpretado pelas pré-compreensões praxiológicas4.



Natureza da Indeterminação

Fundamento e Legitimação

Efeito no Sistema Jurídico

Diagnóstico Hermenêutico

Criada pelo Legislador (Cláusula Geral)

Delegação democrática e técnica metanormativa4.

Permite adequação justa aos fatos imprevistos e otimização2.

Legítima; atuação concretizadora do juiz4.

Criada pelo Julgador (Ativismo Formal)

Subjetivismo do magistrado; arbítrio travestido de exegese4.

Insegurança jurídica, quebra de contratos e distorção ideológica4.

Ilegítima; configura tredestinação ideológica indireta4.



8.2 A Falácia Epistemológica Formalista na Valoração Probatória


O perigo do formalismo exarcerbado e sua dissociação da razão prática observa-se, de igual modo, no campo penal processual, mormente na compreensão do instituto da "cadeia de custódia". A compreensão literal positivista que exige o descarte de todo o conjunto probatório por falhas periféricas é um atestado de cegueira analítica4.

Um exemplo elucidativo reside na análise da validade probatória de dados extraídos de dispositivos eletrônicos. Se o aparelho celular sofre uma falha de conservação que macula a sua integridade primária, a epistemologia formalista exigiria a nulidade absoluta de toda a evidência conexa. 

Todavia, como acertadamente pontuou o STJ no julgamento do AgRg na Rcl 48.657-RS, o chip de operadora (SIM card) não é parte integrante indissociável do aparelho e constitui uma fonte absolutamente independente de prova, não sendo alcançado pela nulidade que recaiu sobre o hardware telefônico36. Levar ao extremo a cláusula da cadeia de custódia, declarando nulidade sobre objetos de naturezas fáticas distintas apenas por estarem circunstancialmente aglutinados, seria "um completo absurdo se não levadas antes em consideração a essência da natureza de fato dos objetos e sua adequação proporcional"4.

Esta capacidade de modular a normatividade (inclusive as garantias processuais) frente à realidade material demonstra o vigor necessário à jurisdição pós-positivista, garantindo que a praxiologia paute a utilidade e a razoabilidade da ponderação dos bens jurídicos.



9. Precedentes Integrativos e o Caminho Jurisprudencial


A técnica hermenêutica historicista-biográfica, amalgamada à praxiologia, não constitui mera utopia acadêmica, encontrando ressonância em julgados de cúpula que começam a romper com os dogmas do positivismo arcaico.

Nota-se essa superação paradigmática na atuação da Primeira Seção do STJ (REsp 2.172.497), que, em sede de responsabilidade civil do Estado nos casos de graves violações de direitos humanos (os "Crimes de Maio"), determinou expressamente o afastamento da prescrição quinquenal do Decreto nº 20.910/193238. O Tribunal exerceu a derrotabilidade da regra prescricional fechada em virtude do compromisso internacional brasileiro e da necessária aplicação do controle de convencionalidade, promovendo a justiça material sobre o formalismo legal38.

Semelhantemente, o STF, ao fixar tese no Tema 22 de Repercussão Geral sobre a investigação social em concursos para carreiras de segurança pública, admitiu a derrotabilidade episódica da presunção de inocência, permitindo a valoração negativa de inquéritos quando amparada em histórico concreto e grave de condutas incompatíveis40. É a razão prática atuando para proteger o bem comum, demonstrando que nenhuma regra ou garantia individual opera no vazio axiológico ou prescinde da análise de seus efeitos colaterais na sociedade.

Tais avanços precisam, urgentemente, ser expandidos à seara patrimonial (para coibir abusos como os do bem de família suntuoso), selando o compromisso com a eficácia horizontal dos direitos fundamentais1.



10. Conclusão


A ciência jurídica, ao transitar para o paradigma pós-positivista, assumiu o complexo encargo de não ser apenas a aplicadora passiva de fórmulas gramaticais, mas a artífice da justiça no caso concreto. 


O presente trabalho evidenciou de forma contundente que a violação de uma pré-compreensão praxiológica na interpretação normativa culmina em externalidades catastróficas. 


Ao analisar a proteção indiscriminada do bem de família frente a imóveis de luxo, percebeu-se a gênese de "incentivos perversos", mecanismos que estimulam o desvio patrimonial sucessório, a marginalização da força de trabalho dos herdeiros e a premiação da inadimplência contumaz. Os reflexos dessa leniência hermenêutica transbordam os autos, atingindo o coração da macroeconomia, encolhendo os mercados de crédito, paralisando a circulação de capital e ancorando o PIB brasileiro ao subdesenvolvimento.


Essas anomalias representam muito mais que equívocos exegéticos; elas caracterizam uma "tredestinação ontológica" do instituto jurídico protetivo, abrindo uma "lacuna ontológica" que sangra o sistema em forma de "injustiça material efetiva", posto evidenciar flagrantemente fins protetivos ao sistema jurídico que divorciam totalmente não apenas das práticas reiteradas sociais já utilmente consagrados a longa data pelo corpo social local respectivo, mas de sua violação, com base na teoria dos jogos, implica desequilíbrio das iniciativas institucionais no senso de continuidade das atividades sociais inerentes, implicando, com base na inevitável preservação dos próprios interesses dos indivíduos quanto a utilidade marginal dos meios e recursos que possuam (“pré compreensão praxiológica”…) para a configuração de seus interesses a serem estimulados a preterirem as regras desproprocionais do jogo atual da nossa legislação, os conduzindo a comportamentos estimulados a “incentivos perversos”, que é, nada mais e nada menos do que aquilo que a criminologia estudo sobre os comportamentos delinquentes de um indivíduo que tende a delitos por causas bio-psico-sociais, redundando na subcultura da corrupção não apenas de forma anedótica a nível micro, mas a nível macro, reiterando um “acoplamento estrutural subversivo” de “subsistemas sociais subjugados a interesses patrimonialistas protecionistas tecnocráticos” (como já comentamos nos nossos estudos a respeito do que denominamos como “Fascismo 2.0”, tanto no Brasil como no Mundo atual…), se fazendo valer de ‘interesse público’ em nome da ‘segurança jurídica’, consubstanciado no denominado ‘garantismo’, que, nesse sentido, se torna ‘hiperbólico’ e ‘monocular’ (...abrindo uma "lacuna ontológica" que sangra o sistema em forma de "injustiça material efetiva"...).


Demonstrou-se que a terapia hermenêutica para tal enfermidade é o reconhecimento corajoso da derrotabilidade (defeasibility) das regras literais nos casos limites, fulminando de nulidade as decisões que se recusam a processar a devida adequação proporcional de suas consequências fáticas (...uma "lacuna ontológica" que sangra o sistema em forma de "injustiça material efetiva"...).


Desmascarou-se, de igual modo, a falácia do "garantismo hiperbólico monocular", que idolatra as prerrogativas do devedor ou do infrator enquanto vilipendia os direitos fundamentais do credor, da vítima e do corpo social. 

Nesse sentido, o escudo principiológico da ética deontológica argumentativa deve servir para aniquilar as veleidades do utilitarismo estrito, mas também para impedir o cinismo do "ativismo judicial formal" (“Ativismo Judicial Hiperbólico”, como já mencionamos anteriormente...), responsável pela “tredestinação ideológica indireta” (já que, com base nos nossos estudo anteriores a respeito sobre as análises ontológicas, epistemológicas baseadas nas técnicas e metodologias hermenêuticas praxiológicas, por meio do método hermenêutico historicista-biográfico, se percebe o desvio do viés ideológico inerente a autoridade competente em decidir e se posicionar a respeito de uma dada decisão (negocial, administrativa, judicial, regulatória etc), sem caracterizar os meios técnicos objetivos casuísticos a depender das peculiaridades circunstanciais comprovadas a depender de um dado caso concreto (distinção ou distinguishing…), empregando fundamentos e interpretações de viés ideológico contrários aos quais se consolidou nas práticas pretéritas das quais ocupa na função do seu respectivo cargo, implicando a denominada “tredestinação ideológica direta” e suas consequências (nulidade de decisões sob tais vícios e a perda do cargo por cassação, seja por meio da prática de “improbidade administrativa” por violação do ´princípio da moralidade administrativa (probidade), seja pelas hipóteses legais possivelmente adequadas a prática de “crimes de responsabilidade”...), em que o julgador usurpa o conceito definido para alojar seu viés autoritário.


Por fim, ao adotar a técnica hermenêutica constitucional historicista-biográfica, o operador do direito resgata a verdadeira vocação da jurisdição, especialmente no seu sentido material e, principalmente, no sentido de sua legitimidade. 


É (a hermenêutica praxiológica…) no equilíbrio entre o telos pragmático da utilidade das consequências e o imperativo moral intransigível da justiça e do devido processo legal (formal e substancial) que a dogmática jurídica pós positivista contemporânea alcança seu ápice. 


Sob esse vetor integrador de praxiologia, ontologia e epistemologia, os esforços convergentes de doutrina, jurisprudência e da eficácia dos direitos fundamentais erguem uma realidade onde a razão prática e a ética (deontológica e argumentativa) podem não apenas coexistir, mas caminhar permanentemente de mãos dadas em prol do progresso civilizatório.




Referências citadas


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  33. STJ Decide que Celular Não é Bem Essencial: Entenda a Regra de, https://www.sfsadv.com.br/post/stj-decide-que-celular-n%C3%A3o-%C3%A9-bem-essencial-entenda-a-regra-de-troca-por-defeito

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  35. STJ - Informativo de Jurisprudência n. -, https://scon.stj.jus.br/jurisprudencia/externo/informativo/?aplicacao=informativo&acao=pesquisar&livre=%22AgRg+&&b=INFJ&p=true&t=&l=25&i=25

  36. Nulidade do celular não alcança o chip: Terceira Seção trata o SIM, https://www.jurisprudenciaia.com.br/informativos/stj/897/stj-897-chip-celular-fonte-independente-cadeia-custodia

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  38. REsp 2.172.497-SP — STJ — Superior Tribunal de Justiça, https://www.portaladministrativo.com.br/julgamentos/a-aplicacao-do-art-1o-do-decreto-n-209101932-que-estabelece-a-prescricao-quinquenal-e-incompativel-com-os-compromissos-internacionais-assumidos-pelo-brasil-e-com-a-jurisprudencia-do-stj-no-cont/

  39. STJ afasta prescrição em ação indenizatória sobre os Crimes de Maio, https://www.stj.jus.br/sites/portalp/Paginas/Comunicacao/Noticias/2026/12082026-STJ-afasta-prescricao-em-acao-indenizatoria-sobre-os-Crimes-de-Maio--pedidos-serao-analisados-na-Justica-paulista.aspx

  40. O que reprova na Investigação Social: Principais Causas e Como, https://marcelofernandes.adv.br/o-que-reprova-na-investigacao-social-principais-causas-e-como-evitar/

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  42. derrotabilidade das normas jurídicas e a sua aplicabilidade ... - UFPR, https://revistas.ufpr.br/direito/article/viewFile/30698/19815

 

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É o caso de SEU CONDOMÍNIO? VERIFIQUE! https://www.praxistas.com.br/advocacia/tabela-tarifaria-rj
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Impactos da Revisão do Tema 414 do STJ e a atual desproporção da Estrutura Tarifária de Saneamento no Estado do Rio de Janeiro: medidas possíveis a respeito.




ADAM TELLES DE MORAES 


Habilitação Nacional de Advogado - OAB 

(Código da credencial: 155744/RJ) 


Professional development certificate in Global Business Management - Massachusetts Institute of Business - MIB 

(Código de credencial 7F40D3D8-0AF7-4F30-AFFE-38B39EC7ECD3)





RESUMO


O presente estudo analisa os impactos jurídicos, econômicos e regulatórios decorrentes da revisão do Tema 414 pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) sobre a estrutura tarifária de saneamento básico no Estado do Rio de Janeiro. A partir de uma abordagem dogmática e pragmática, investiga-se a superposição da nova jurisprudência — que chancelou a legalidade da cobrança da tarifa mínima ("franquia de consumo") multiplicada pelo número de economias em condomínios servidos por hidrômetro único — sobre os regramentos estaduais, em especial o Decreto Estadual nº 48.225/2022. Demonstra-se que a matriz tarifária fluminense, gerida pela AGENERSA, já apresentava valores basais artificialmente inflacionados para compensar entendimentos judiciais pretéritos que proibiam a referida multiplicação. A aplicação abrupta do novo entendimento do STJ sobre esta base distorcida materializou majorações tarifárias severas, com registros empíricos de aumentos de até 2.908% para os consumidores, gerando faturamentos sobre "água fictícia". Sob a ótica do direito administrativo e consumerista, explora-se a ofensa primária ao princípio da modicidade tarifária (art. 29 da Lei nº 11.445/2007) e a consequente configuração de vantagem manifestamente excessiva. Conclui-se que a atuação jurídica deve transcender a impugnação da metodologia de multiplicação, concentrando-se na declaração de derrotabilidade da norma estadual e na responsabilização institucional por omissão, utilizando-se de tutelas coletivas estruturais como Ação Popular e Ação Civil Pública para forçar uma Revisão Tarifária Extraordinária.


Palavras-chave: Saneamento básico. Regulação tarifária. Tema 414 do STJ. Modicidade tarifária. Derrotabilidade normativa.




ABSTRACT


This study analyzes the legal, economic, and regulatory impacts resulting from the revision of Theme 414 by the Superior Court of Justice (STJ) on the basic sanitation tariff structure in the State of Rio de Janeiro. From a dogmatic and pragmatic approach, it investigates the superposition of the new jurisprudence—which endorsed the legality of charging the minimum tariff ("consumption franchise") multiplied by the number of units in condominiums served by a single water meter—over state regulations, especially State Decree No. 48,225/2022. It demonstrates that the tariff matrix in Rio de Janeiro, managed by AGENERSA, already presented artificially inflated baseline values to compensate for past judicial understandings that prohibited said multiplication. The abrupt application of the STJ's new understanding over this distorted baseline materialized severe tariff increases, with empirical records of raises up to 2,908% for consumers, generating billing on "fictitious water". From the perspective of administrative and consumer law, it explores the primary offense to the principle of tariff modicity (Art. 29 of Law No. 11,445/2007) and the consequent configuration of manifestly excessive advantage. It concludes that legal action must transcend the impugnation of the multiplication methodology, focusing on the declaration of defeasibility of the state norm and institutional accountability for omission, utilizing collective structural protections such as Popular Action and Public Civil Action to force an Extraordinary Tariff Revision.


Keywords: Basic sanitation. Tariff regulation. STJ Theme 414. Tariff modicity. Normative defeasibility.


  1. Introdução


A prestação de serviços públicos de saneamento básico, consubstanciada no fornecimento de água potável e no esgotamento sanitário, atravessa um período de severa instabilidade jurídica e regulatória no Brasil. O epicentro desta crise localiza-se no Estado do Rio de Janeiro, precipitado por uma confluência de fatores que englobam a desestatização da antiga Companhia Estadual de Águas e Esgotos (CEDAE), a promulgação de novos marcos regulatórios por parte da Agência Reguladora de Energia e Saneamento Básico do Estado do Rio de Janeiro (AGENERSA) e, de forma superveniente e fulminante, a guinada jurisprudencial promovida pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) por meio da revisão do Tema 414 dos recursos repetitivos.


O presente relatório técnico apresenta uma dissecação analítica, sequencial e exaustiva da apresentação institucional intitulada "Gestão para resultados - STJ – TEMA 414: Alterações na Legislação e Impactos nos Valores Finais das contas", elaborada por Eduardo Figueira e chancelada pela Câmara Comunitária da Barra da Tijuca. O escopo desta análise transcende a mera transcrição de dados, adentrando na formulação de reflexões de segunda e terceira ordem acerca dos fundamentos jurídicos aplicados, dos impactos micro e macroeconômicos impostos aos consumidores, e das graves distorções evidenciadas na arquitetura tarifária fluminense.


Por fim, o documento consolida o resumo fático-jurídico da conjuntura e delineia, com rigor técnico, o principal e mais intrincado problema a ser enfrentado na esfera judicial pelas representações condominiais, afastando teses superadas e focando no núcleo da abusividade econômica.




  1. Análise Sequencial e Pormenorizada da Apresentação Institucional



2.1. O Ponto de Partida: Governança e Contextualização


Percebe-se de imediato o tom de urgência e a premissa central do debate: as profundas alterações na legislação de saneamento e na jurisprudência pátria, com destaque absoluto para o Tema 414 do STJ, resultaram em impactos avassaladores e imediatos nos valores finais das faturas de água e esgoto1. A autoria atribuída à Câmara Comunitária da Barra da Tijuca denota a mobilização da sociedade civil organizada, um ator fundamental em áreas urbanas caracterizadas por condomínios de médio e grande porte. Tais estruturas abrigam múltiplas unidades autônomas de consumo (tecnicamente denominadas "economias"), porém são historicamente servidas por um único ponto físico de medição: o hidrômetro único1.


A introdução do conceito de "Gestão para resultados" e a estruturação da agenda em cinco tópicos lógicos — contextualização, ameaças, casos reais, conclusão e debates — sugerem uma abordagem eminentemente pragmática. O objetivo do material original é, de forma evidente, municiar síndicos, gestores condominiais e administradoras com dados empíricos robustos para enfrentar um choque tarifário que ameaça a própria viabilidade financeira dos edifícios. Do ponto de vista analítico, esta estrutura é classicamente desenhada para expor uma falha de mercado crônica ou uma assimetria regulatória: primeiramente, demonstra-se a regra histórica do jogo; em seguida, expõe-se como essa regra foi alterada de forma abrupta pelo Poder Judiciário; e, finalmente, comprova-se o efeito prático deletério dessa alteração no consumidor final, que passa a absorver toda a ineficiência do modelo de concessão.



2.2. O Conflito Normativo e a História Jurisprudencial Fluminense


É de suma importância para a compreensão da complexidade jurídica que envolve o saneamento no Estado do Rio de Janeiro sabermos sobre a vasta e intrincada cronologia de diplomas legais, iniciando no Decreto Estadual nº 553 de 1976 e perpassando por sucessivos regulamentos até o Decreto nº 26.323 de 20001. Esses instrumentos normativos moldaram, durante décadas, a relação de monopólio natural entre a extinta operadora estatal (CEDAE) e os usuários do sistema.


Contudo, o ponto nevrálgico desta lâmina reside na citação das Súmulas do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJRJ), especificamente os verbetes 84, 152, 175 e 1911. Durante mais de uma década, a jurisprudência fluminense e nacional havia se consolidado firmemente em torno da tese de que era ilícita, abusiva e desproporcional a cobrança da tarifa mínima multiplicada pelo número de unidades autônomas (economias) quando o condomínio possuía apenas um hidrômetro aferidor3. A Súmula 191 do TJRJ, por exemplo, cristalizava essa proibição, expressando literalmente que "na prestação do serviço de água e esgoto é incabível a aplicação da tarifa mínima multiplicada pelo número de unidades autônomas do condomínio"3.


Por sua vez, a Súmula 175 do TJRJ estabelecia uma sanção rigorosa: determinava que a cobrança dessa tarifa mínima multiplicada sujeitava a concessionária à devolução em dobro dos valores comprovadamente pagos a maior, sob a égide do parágrafo único do artigo 42 do Código de Defesa do Consumidor (CDC)2. A Súmula 152, em complemento, delineava as restrições à cobrança por estimativa4.


A apresentação assinala, com extrema precisão, o conflito desse arcabouço jurisprudencial protetivo com o atual Regulamento de Serviços, materializado pelo Decreto Estadual nº 48.225/2022 e chancelado pelas resoluções da AGENERSA1. Ocorre que a nova regulação infralegal fluminense foi arquitetada para garantir a atratividade econômica e o equilíbrio financeiro no processo de leilão dos blocos da CEDAE. A outorga desses blocos, que movimentou dezenas de bilhões de reais (com lances de outorga que chegaram a R$ 10.000.000,00 apenas em frações específicas do edital), exigia garantias de fluxo de caixa para as concessionárias privadas entrantes (como Águas do Rio e Iguá)7. 


Esse arranjo contratual sempre esteve em rota de colisão com a jurisprudência protetiva do TJRJ, criando um ambiente de latente insegurança jurídica que aguardava uma resolução nas cortes superiores.



2.3. A Ruptura Jurisprudencial: O Overruling do Tema 414 pelo STJ 


Isso significou o epicentro do terremoto regulatório fluminense e nacional: a asserção de que "passou a ser legal a cobrança pelo mínimo multiplicado pelas economias"1. A data em destaque, 25 de junho de 2024, refere-se à publicação do histórico acórdão da Primeira Seção do STJ, que revisou a tese outrora fixada em 2010 sob o rito dos recursos repetitivos (o antigo Tema 414). Esta revisão operou-se fundamentalmente através do julgamento dos Recursos Especiais nº 1.937.887/RJ e nº 1.937.891/RJ4.


Sob a proficiente relatoria do Ministro Paulo Sérgio Domingues, o STJ operou um autêntico overruling (superação de precedente vinculante). A Primeira Seção procedeu a uma releitura estrutural das diretrizes legais de cobrança pelos serviços de saneamento básico, consagradas nos artigos 29 e 30 da Lei nº 11.445/2007 (Marco Legal do Saneamento)11. Durante o julgamento, o STJ dissecou criticamente três metodologias distintas de faturamento para condomínios com hidrômetro único:


  1. O "Consumo Real Fracionado" ou "Modelo Híbrido": Este modelo, amplamente defendido pelos condomínios e endossado por anos pelo TJRJ, dividia o volume total aferido no hidrômetro único pelo número de economias para fins de enquadramento nas faixas de progressividade tarifária, mas isentava cada unidade do pagamento obrigatório de uma "franquia mínima"4. O STJ, neste novo julgamento, declarou esta metodologia expressamente ilegal, argumentando que tal hibridismo de regras subverte a lógica do sistema, desconsidera o conceito de franquia de consumo e cria uma assimetria econômica injustificável entre condomínios e usuários em residências unifamiliares4.


  1. O "Consumo Real Global": Metodologia em que o condomínio é tratado como uma única, imensa e indivisível unidade consumidora. O STJ também fulminou esta prática como ilegal e abusiva, destacando que os recursos hídricos são fruídos de maneira independente pelas diversas frações ideais do ente condominial. Tratar centenas de apartamentos como uma única unidade acarretaria o enquadramento imediato nas faixas mais punitivas da tarifa progressiva, configurando uma penalidade desproporcional4.


  1. O "Consumo Individual Presumido" ou "Franqueado": Esta foi a metodologia chancelada e declarada legal pelo STJ. A Corte firmou entendimento de que é lícita a exigência de uma parcela fixa ("tarifa mínima"), concebida sob a forma de franquia de consumo, que é devida individualmente por cada uma das unidades consumidoras (economias) inseridas no condomínio4. O valor final compõe-se, assim, desta soma das franquias mínimas de todas as economias, acrescida de uma segunda parcela, variável e eventual, exigida apenas se o consumo real medido no hidrômetro único exceder a referida soma das franquias4.


A apresentação institucional alerta, de maneira acurada, para as nuances de eficácia temporal desta decisão, materializadas no instituto da "modulação dos efeitos"1. Ciente do impacto sistêmico e financeiro de seu overruling, o STJ impôs balizas para proteger a segurança jurídica de ambas as partes. 


Para os condomínios, vedou-se que as concessionárias cobrassem valores retroativos decorrentes de eventuais pagamentos a menor efetuados durante a vigência do chamado "modelo híbrido", agora proscrito4. Para as concessionárias, a modulação afastou expressamente a penalidade de devolução em dobro prevista no art. 42, parágrafo único, do CDC11. 


O tribunal compreendeu que a dinâmica e a flutuação da evolução jurisprudencial conferiram certa escusabilidade à conduta pretérita das empresas prestadoras, impedindo que sofressem devoluções milionárias por aplicarem a multiplicação13. 


Assim, para unidades de elevadíssimo consumo global, não há impacto financeiro prático, dado que o consumo real fatalmente superaria a soma das franquias mínimas1.



3. A Mecânica da Cobrança e a Assimetria do Conceito de Economias 


Neste ponto temos uma complexa dogmática jurídica em matemática financeira aplicada, demonstrando cabalmente "o que é o mínimo multiplicado pelas economias" no cotidiano das edificações.


Disso projeta-se um cenário hipotético para fins de análise comparativa: um prédio residencial de 21 andares, contendo duas unidades por andar, cobertura e área de lazer, totalizando 46 unidades ou "economias". Pela nova sistemática convalidada pelo STJ e aplicada à realidade fluminense, assume-se que cada economia residencial possui uma franquia de consumo mínimo fixada em 15 metros cúbicos (). Por conseguinte, o volume mínimo base para faturamento passa a ser artificialmente estipulado em  (46 economias multiplicadas por ), resultando em uma conta compulsória de R$ 7.528,55 para a região de Copacabana, independentemente do consumo1.


O aspecto mais perverso desta equação do ponto de vista do consumidor e da eficiência econômica é exposto a seguir: supondo que, por meio de gestão eficiente e consciência ecológica, o consumo real do edifício aferido no hidrômetro seja de apenas 60% desse limite teórico (ou seja, ), o valor da fatura permanece inalterado. Na prática, o condomínio pagará R$ 3.011,42 (equivalente a ) por uma água puramente fictícia — coloquialmente tratada como "água de vento"1.


Em mais um exercício mental hipotético alinhado a mesma lógica, porém direcionada a um prédio comercial composto por 10 economias. Neste segmento, a franquia mínima por economia é ainda mais elevada, geralmente fixada em 20 metros cúbicos (). O volume mínimo faturado de  (10 economias vezes ) impõe uma tarifa de R$ 8.499,71, também na região de Copacabana. Caso o consumo real seja novamente de 60% da franquia (), os usuários empresariais arcarão com um ônus de R$ 3.455,65 por  de água não utilizada1.


A análise destas hipóteses (extremamente recorrentes na atual realidade fluminense de forma notória, diga-se de passagem…) evidencia-se a profunda assimetria estrutural e comportamental da nova tese quando aplicada em um ambiente sem modicidade tarifária prévia. 


Ao chancelar a cobrança por tarifa mínima individualizada em regime de hidrômetro único, o judiciário ancorou-se no imperativo de garantir a sustentabilidade econômico-financeira do sistema de saneamento4. 


A premissa teórica é que a tarifa mínima remunera a indisponibilidade da rede, a manutenção da infraestrutura, a captação e o tratamento da água que está constantemente à disposição daquela unidade4. 


Contudo, a presunção inelástica de que cada unidade deve compulsoriamente pagar por 15 ou 20 mil litros de água desincentiva severamente o consumo racional, ferindo os princípios da eficiência econômica e da sustentabilidade. Uma vez que os moradores percebem que qualquer esforço individual ou coletivo de economia não se reflete em redução monetária na fatura (até que se ultrapasse o teto das franquias somadas), o uso irresponsável do recurso hídrico tende a ser normalizado4.



4. A Materialização do Choque Tarifário: Estudo de Casos Reais 


A transição da hipótese matemática para a brutal realidade mercadológica manifesta-se nos sétimo e oitavo slides. A apresentação exibe reproduções de faturas originais, conferindo inegável lastro probatório à tese de asfixia financeira.


Passa-se a análise concreta de um faturamento efetuado pela concessionária Águas do Rio para um condomínio eminentemente residencial localizado no bairro de Copacabana, composto por 80 economias, conforme anexos. 


O consumo real aferido no hidrômetro único e inconteste foi de parcos 111 metros cúbicos. Sob a égide da regra anterior ao overruling do STJ, em que a jurisprudência proibia a multiplicação e o condomínio pagava predominantemente pelo volume real fracionado, o valor final da conta perfez o montante razoável de R$ 1.213,391.


Entretanto, munida da nova autorização jurisprudencial, a concessionária passou a aplicar a franquia presumida (80 economias multiplicadas por ), exigindo o pagamento correspondente a um volume fictício de . 


A fatura subiu vertiginosamente para R$ 13.093,14, materializando um aumento astronômico de 1.079%1. Este caso real é a prova empírica de que a tarifa mínima no Rio de Janeiro deixou de atuar apenas como um mecanismo de recuperação de custos fixos essenciais, transmutando-se em um vetor de superávit compulsório e injustificado, já que o condomínio consumiu menos de 10% do volume pelo qual foi efetivamente cobrado.


Outro cenário concreto de proporções ainda mais dramáticas, desta vez envolvendo um empreendimento comercial, o edifício Vision Offices, situado na Barra da Tijuca, área de outorga concedida à empresa Iguá. Este condomínio gigantesco abriga 194 economias comerciais. O volume real consumido no ciclo analisado limitou-se a exíguos 129 metros cúbicos (). Em um cenário de cobrança lastreado estritamente neste consumo efetivo, a fatura perfaria R$ 5.416,301.


Ao acionar a prerrogativa da franquia mínima multiplicada por 194 economias empresariais, a concessionária Iguá gerou um faturamento presumido de . A consequência financeira foi imediata e devastadora: a cobrança saltou para assombrosos R$ 162.908,61. 


O impacto tarifário registrou a marca insustentável de 2.908% de majoração1. 


Do ponto de vista macroeconômico e da regulação de serviços públicos, uma elevação repentina desta magnitude desestabiliza fatalmente o fluxo de caixa, as previsões orçamentárias de longo prazo e a própria viabilidade de centenas de pequenos e médios negócios sediados no complexo. 


A imposição de tal ônus, sob a genérica rubrica da "disponibilidade contínua do serviço", rompe com qualquer noção de paridade, colidindo frontalmente com as diretrizes da Lei Federal nº 11.445/2007. 


Este marco legal é taxativo ao determinar que a estrutura de remuneração e cobrança deve invariavelmente observar a proporcionalidade, a capacidade contributiva dos usuários e o efetivo volume utilizado, coibindo práticas arrecadatórias desconectadas da realidade fática do consumo11.



5. Estudo Comparado das Estruturas Tarifárias Nacionais


O núcleo duro da pesquisa comparativa apresentada no relatório trazido, na oportunidade, pelo material anexo da Câmara Comunitária alinha, de maneira analítica, as complexas matrizes tarifárias vigentes em quatro das maiores metrópoles brasileiras: Rio de Janeiro (AGENERSA), São Paulo (SABESP), Curitiba (SANEPAR) e Belo Horizonte (COPASA/ARSAE-MG). A consolidação desses dados revela discrepâncias regulatórias abissais.


Jurisdição (Concessionária / Regulador)

Arquitetura Estrutural do Modelo de Cobrança

Destaques da Estrutura Tarifária Integrada (Água e Esgotamento)

Rio de Janeiro (Águas do Rio, Iguá / AGENERSA) - Página 9

Regime de faixas progressivas atrelado a multiplicadores escalonados extremamente agressivos1.

A tarifa residencial inicial (franquia de 0 a 15 m³) já embute custos base elevados para suportar a ausência pretérita da multiplicação. As categorias Comercial e Industrial não possuem degraus suaves; iniciam-se na faixa de 0 a 20 m³ com valores unitários nominais desproporcionalmente superiores aos demais estados.

São Paulo (SABESP / ARSESP) - Página 10

Divisão estrita e equânime dos valores nominais entre água e esgoto, apurados em reais por metro cúbico (R$/m³)1.

Constata-se a presença de uma tarifa residencial social e para usuários em situação de vulnerabilidade muito bem delimitadas (bases de R$ 11,96/mês e R$ 9,12/mês), acompanhadas de degraus de progressividade mais lineares. A tarifa comercial convencional apresenta uma base fixa e acréscimos volumétricos estritamente proporcionais (por exemplo, faixa de 0 a 10 m³ tarifada a R$ 76,98/mês para ambas as rubricas).

Curitiba (SANEPAR / AGEPAR) - Página 11

Tarifa alicerce estabelecida em R$/m³ com primeira subdivisão até a marca de 5 m³, seguida de faixas subsequentes graduais1.

A composição somada de Água e Esgoto na base inicial de até  atinge R$ 93,28 na categoria residencial. O salto marginal para a faixa de consumo mais intensa (acima de ) possui um custo de R$ 27,57/m³. Esta estrutura demonstra uma preocupação regulatória em não punir desproporcionalmente as faixas iniciais e o consumo basal humano.

Belo Horizonte (COPASA / ARSAE-MG) - Página 12

Modelo estrutural sofisticado e moderno. Tarifa bifurcada entre "Parcela Fixa" (expressa em R$/mês) e "Parcela Variável" (expressa em R$/m³)1.

A regulação mineira exige uma parcela fixa explícita para o serviço de água (R$ 21,23 ao mês) e para o esgotamento (R$ 15,70 ao mês) na matriz residencial. O consumo efetivo adicional (faixa de 0 a ) é cobrado a valores marginais módicos de R$ 2,20 e R$ 1,63, respectivamente.


A ilação de segunda ordem mais relevante que exsurge desta compilação é a constatação inegável de que os modelos regulatórios adotados em São Paulo, no Paraná e em Minas Gerais já atravessaram complexos ciclos de revisões tarifárias estruturais (RTE). 


Estas revisões tiveram como escopo primordial modernizar a anacrônica lógica da "tarifa mínima", que historicamente agrupava custos fixos e variáveis em um único bloco opaco. Em Belo Horizonte, sob a regulação da ARSAE-MG, nota-se a adoção transparente de uma "tarifa fixa" totalmente dissociada da "tarifa volumétrica". Na literatura econômica da regulação de serviços públicos, este é reconhecido como o modelo mais equitativo: a taxa fixa destina-se a garantir a amortização dos custos imutáveis de operação e manutenção do monopólio natural, enquanto a taxa volumétrica atua exclusivamente sobre a externalidade do uso da água, servindo como precificador e desincentivador de desperdício1.


O Estado do Rio de Janeiro, no entanto, optou pelo imobilismo regulatório, perpetuando uma estrutura tarifária antiquada, ineficiente e artificialmente inflacionada. 


Para compreender este fenômeno, é necessário resgatar a premissa histórica: como o TJRJ proibiu, durante anos (Súmulas 175 e 191), a cobrança por unidade autônoma nos condomínios de hidrômetro único, a AGENERSA e a extinta estatal CEDAE elevaram o valor absoluto do metro cúbico e o teto da tarifa mínima global2. 


Essa foi a engrenagem encontrada para compensar a perda de receita e garantir a suposta modicidade global. Quando, num ato repentino de revisão jurisprudencial (Tema 414), o STJ permitiu que essa tarifa basal — já espuriamente inflacionada — passasse a ser multiplicada linearmente por dezenas ou centenas de unidades, o resultado inevitável foi o nascimento de uma exação com nítidos contornos confiscatórios.



6. Distorções Macroeconômicas e o Precipício Regulatório do Rio de Janeiro


Encaminho-nos a sintese da distorção interestadual de forma visualmente impactante. 


Ao isolar e comparar exclusivamente o valor mínimo exigido de uma única economia comercial em diversas praças brasileiras, os dados escancaram um abismo regulatório sem precedentes:

  • Goiânia: R$ 22,58 (franquia de 0 a )

  • Belo Horizonte: R$ 59,84 (franquia de 0 a )

  • Salvador: R$ 112,96 (franquia de 0 a )

  • Bragança Paulista (SP): R$ 138,56 (franquia de 0 a )

  • Curitiba: R$ 167,91 (franquia de 0 a )

  • Rio de Janeiro: R$ 838,98 (franquia alargada de 0 a )1.


A desproporção é autoevidente: o custo mínimo exigido de um empresário fluminense apenas para manter o hidrômetro ativo é, em termos nominais, quase cinco vezes superior ao do segundo colocado neste estudo (Curitiba) e insondáveis trinta e sete vezes superior à praça mais módica avaliada (Goiânia). Tal cenário impõe um gravame insustentável ao custo de vida e ao "Custo Brasil" localizado no Rio de Janeiro, afugentando novos empreendimentos e erodindo a margem de lucro do setor de serviços e comércio1.


Assim, prova definitiva de que o estrangulamento transcende a mera reviravolta da jurisprudência nacional e habita, em essência, nas falhas da modelagem tarifária chancelada pela agência local. 


Realiza-se um teste de estresse transpondo os casos reais previamente analisados: se os edifícios reais apresentados estivessem localizados sob a jurisdição da Copasa em Belo Horizonte, o impacto financeiro seria radicalmente menor e perfeitamente absorvível1. 


O enorme condomínio comercial Vision Offices pagaria um valor aproximado de R$ 28.800,00 de tarifa mínima em Minas Gerais. 


??!!


É incontestável que este montante supera o valor equivalente ao consumo real estrito do prédio (que seria de R$ 5.416,31), mas mantém-se a uma distância salutar da catástrofe financeira inominável de R$ 162.908,61 atualmente chancelada e exigida pela Iguá no Estado fluminense1.



7. Conclusões Institucionais e a Necessidade de Mobilização Social 


Por todo o exposto, a ilação principal assevera que "desconhece-se água mais cara do que a do Rio de Janeiro no Brasil", uma anomalia gestada pela recalcitrância do Estado em não promover o reequilíbrio prévio de sua Estrutura Tarifária em compasso com as mudanças de entendimento jurídico1. 


Levanta-se, com extrema sobriedade e pertinência técnica, uma colossal interrogação sobre a higidez e a independência da governança do saneamento estadual1. 


Ao aprovar editais e leiloar concessões de longo prazo calcadas em projeções que transferem choques de ineficiência e distorções regulatórias brutalmente para os ombros dos contribuintes cativos, o Estado falha na sua tutela do princípio da modicidade e da transparência tarifária7.


A exortação final, orientando que os síndicos eduquem as respectivas massas de condôminos, esmiuçando os componentes das parcelas faturadas através das Assembleias Gerais Ordinárias e Extraordinárias (AGO/AGE), revela a compreensão tácita de que uma crise sistêmica dessa magnitude não encontrará resolução célere unicamente pelas vias judiciais tradicionais. Exigirá uma formidável mobilização civil, pressão legislativa sobre os poderes concedentes e a arregimentação de instâncias de controle social1. 


Outrossim, temos os dados institucionais da Câmara Comunitária da Barra da Tijuca, delineando o esforço corporativo para aglutinar insatisfações isoladas em um bloco coeso de oposição a este status quo1.


8. O Contexto de Transição e o Paradoxo da Lei Federal nº 13.312/2016


Ao analisar profundamente o arcabouço normativo que cerceia este embate, revela-se indispensável escrutinar o papel da Lei Federal nº 13.312, sancionada em 12 de julho de 2016, que modificou substancialmente a Lei nº 11.445/2007 ao instituir a obrigatoriedade da medição individualizada do consumo hídrico nas novas edificações condominiais do país17.


Esta legislação, que impôs um lapso temporal de adaptação de cinco anos — entrando em pleno vigor apenas em julho de 2021 —, teve como mérito precípuo introduzir no direito urbanístico e ambiental pátrio o imperativo da justiça no rateio hídrico16. 


Em prédios dotados de hidrômetros individualizados, fulmina-se a iniquidade do rateio indiscriminado: o morador de uma unidade subutilizada não subsidia o gasto suntuário de outra família residente no mesmo complexo. O consumo de recursos e os ônus sobrepõem-se com exatidão17. Levantamentos da Agência Nacional de Águas apontam retração sustentada de 20% a 30% no volume de consumo nesses condomínios adaptados, o que prova o papel educador do hidrômetro na porta17.


Neste panorama, a superação jurisprudencial patrocinada pelo STJ (Tema 414), que força o pagamento da franquia mínima por cada apartamento em condomínios de hidrômetro único, não foi uma medida despida de lógica sistêmica. 


Nos meandros da doutrina, argumenta-se que tal modelo atua como um elemento propulsor, criando um custo de oportunidade tão severo que obrigaria, inexoravelmente, todos os condomínios antigos do Brasil a buscarem, por iniciativa própria, a instalação voluntária e modernizadora de medidores em suas frações11.


Contudo, ao transpor esta conjectura teórica para o parque habitacional e comercial real e consolidado de uma metrópole como o Rio de Janeiro, defronta-se com um formidável paradoxo, o qual chamo aqui de "Aprisionamento pela Impossibilidade Estrutural". 


É de conhecimento técnico que grande parte dos edifícios fluminenses das décadas de 1960 a 1990 foi erigida sob esquemas arquitetônicos verticais de plumadas interligadas (ou seja, o mesmo cano espinha dorsal alimenta os lavabos da coluna direita do térreo ao topo; e outro independente alimenta as cozinhas)18. 


Adequar tais empreendimentos ao padrão de hidrometração individual demandaria intervenções destrutivas na engenharia civil, com orçamentos por vezes estratosféricos que suplantam a arrecadação plurianual do fundo de reserva do condomínio, somado ao elevado risco de comprometimento da estrutura de sustentação, ruídos crônicos e embargos por condôminos insatisfeitos16.


Logo, sob a ótica do legislador pátrio, a própria Lei 13.312/2016 restringiu sabiamente a sua imperatividade às "novas edificações"19. Condomínios preexistentes não figuram sob mandato legal de imposição17. Destarte, o acórdão do STJ no Tema 414, aplicado cumulativamente a uma estrutura tarifária hostil como a elaborada pela AGENERSA, produz um efeito extorsivo imprevisto: pune financeiramente uma coletividade consumidora por não implementar uma adequação técnica que, via de regra, lhes é faticamente vedada e legalmente inexigível. Os condomínios antigos tornam-se prisioneiros crônicos de uma matriz concebida para penalizar os recém-construídos, pavimentando um caminho fértil para a judicialização da abusividade.



9. Resumo Fático, Econômico e Regulatório do Caso


O imbróglio jurídico-financeiro atualmente instalado no Estado do Rio de Janeiro não é fruto de um acidente casuístico, mas o colapso programado de uma grave falha de transição entre modelos regulatórios díspares, operando sob o comando de decisões judiciais historicamente pendulares. Para clareza expositiva, a taxonomia deste evento desdobra-se em três fases interligadas:


  • Fase 1: O Passado e a Ilusão da Modicidade Tarifária: Durante um decênio, as sentenças baseadas no entendimento original do Tema 414 do STJ e chanceladas pelos verbetes das Súmulas 191 e 175 do TJRJ blindaram os condomínios providos de hidrômetro único no Rio de Janeiro2. Sob este arranjo anterior, o faturamento cingia-se ao consumo global real cravado no instrumento de medição, rateado entre os entes condôminos e submetido aos degraus de progressividade4. Para as empresas estatais cedentes, tal modelagem representava extrema incerteza arrecadatória, prejudicando o custeio da infraestrutura universal inelástica. Como resposta, a entidade estatal reguladora (AGENERSA), a fim de preencher as planilhas que demonstravam o equilíbrio econômico-financeiro dos contratos, e para tornar exitosos os estratosféricos leilões de subconcessão da CEDAE, deliberou elevar e manter inalteradamente altas as tarifas unitárias7. Criou-se, de fato, a água e a rubrica fixa mais caras do país; elas precisavam ser sobreprecificadas para mitigar o fato concreto de que as concessionárias privadas vindouras não poderiam se socorrer da rentável técnica de multiplicar a franquia base de um edifício pelo número colossal de unidades nele abrigadas;


  • Fase 2: A Ruptura e o Reposicionamento Dogmático (O Efeito Estilingue): No mês de junho de 2024, imbuído da missão de consolidar a estabilidade sistêmica nacional, frear decisões dispersas e tutelar rigorosamente os preceitos do art. 29 do Marco Legal do Saneamento Básico, o STJ provocou a revisão do Tema 4144. A Corte Cidadã chancelou, em tese teoricamente impecável, que condomínios com múltiplos habitantes utilizando um mesmo relógio de entrada sobrecarregam e se beneficiam da infraestrutura física preexistente na exata mesma proporção fática que residências providas de hidrômetros apartados. Decretou-se que isentar o modelo de moradia coletiva unificado da respectiva parcela fixa atinente a cada unidade constituía odioso privilégio material. Tal dispensa, argumentaram os ministros, infligia iniquidade ao encarecer a precificação geral remanescente e afetar a parcela mais vulnerável da população que reside em configurações monofamiliares4. Subitamente, com a publicação desta decisão em 25/06/2024, o STJ deferiu peremptoriamente autorização legal às concessionárias para retomar a metodologia da franquia mínima de consumo per capita (multiplicação de cada economia faturável pela rubrica basal tarifada)9.


  • Fase 3: O Desastre Operacional e o Confisco (O Choque Tarifário): Em posse do mais robusto aval hermenêutico do país — um precedente firmado em ritos repetitivos —, companhias privadas como Águas do Rio e Iguá não procrastinaram. Iniciaram a aplicação universal e cega do novo entendimento, passando a multiplicar incontinenti a tabela fixada pelo Decreto nº 48.225/20221. O desastre residiu no fato indelével de que esta tarifa basal faturada já padecia de hipertrofia severa e estava sobrevalorizada pelas omissões anteriores1. O consumidor corporativo e habitacional fluminense colidiu com o revés duplo da imperícia regulatória: tornou-se vítima da base de cálculo estratosférica (idealizada no passado obscuro em que a multiplicação era vedada e precisava ser compensada) agora chancelada pela força bruta quantitativa (a multiplicação da cota pelo número espantoso de apartamentos, agora liberada em 2024)1. O corolário manifesta-se nos espasmos inflacionários atestados pela documentação acosta: edifícios absorvendo aumentos inexplicáveis de até 2.908% nos boletos recorrentes. Em linguagem jurídica, um sistema pautado pela provisão de modicidade desintegrou-se financeiramente, e a demanda engessada do hidrômetro único asfixia e estrangula em alta velocidade o tecido produtivo de shoppings, complexos industriais e vilas residenciais de todo o Rio de Janeiro1.



10. O Principal Problema a ser Enfrentado Judicialmente e o Novo Paradigma Estratégico


Neste panorama em constante deterioração, o horizonte contencioso para operadores do direito, administradores corporativos e corpos jurídicos que assessoram blocos condominiais metamorfoseou-se de forma profunda. As estratégias inauguradas com êxito nas décadas passadas converteram-se subitamente em expedientes inúteis perante o aparato judicante.


O erro capital e a armadilha letal que o patrocínio jurídico destas centenas de milhares de condomínios deve rejeitar peremptoriamente neste novo momento é perpetuar ações pleiteando a anulação genérica da "multiplicação das economias pelo hidrômetro único". 


Insistir nos argumentos declinados pelas ultrapassadas Súmulas 191 e 175 do TJRJ é devotar esforços ao ostracismo. 


A tese puritana que arguia a franca ilegalidade do método de multiplicação foi definitivamente erradicada, operando-se trânsito em julgado e eficácia de precedente vinculante perante a mais alta corte (Tema Repetitivo 414 do STJ, Resp. 1.937.887/RJ e Resp. 1.937.891/RJ). 


O mandamento estabelecido, de reverência e observância cogente e imediata por todos os juízes singulares e desembargadores dos tribunais de justiça brasileiros (por força expressa do artigo 927 do Código de Processo Civil), decretou a absolvição do modelo e o encerramento incontestável dessa discussão4. 


Adicionalmente, vale repisar que os demais arranjos híbridos e fracionados também foram enterrados nestas ementas. Colidir contra a permissão de multiplicar e pugnar pela ilicitude abstrata desta fórmula é submeter-se à inépcia processual, angariando a improcedência liminar do pedido, a condenação irremediável em honorários de sucumbência pesados e, invariavelmente, multas pecuniárias aplicadas por resistência injustificada à uniformização jurisprudencial ou, quiçá, litigância pautada de evidente má-fé processual.




11. O Novo Campo de Batalha: A Agressão ao Direito Regulatório e a Abusividade Intrínseca da Estrutura Tarifária Fluminense


O genuíno e principal óbice, de magnitude monumental, a ser combatido nas raias da jurisdição especializada e cível localiza-se na arena do direito administrativo, da modelagem regulatória e da tutela econômica de defesa dos interesses coletivos do consumidor, e secundariamente no método mecânico adotado. 


A complexidade do pleito desloca a indagação primordial de "se é ou não ilícita a forma como as frações autônomas são cobradas" para uma investigação muito mais densa e técnica: "por quais motivos o montante líquido, inflado, tarifado e extorquido sob a chancela dos decretos alcança proporções desumanas sem qualquer contrapartida prática?"


A formulação do litígio de ordem estrutural deverá ser impulsionada com o patrocínio dos seguintes e robustos pilares perante o Poder Judiciário — sem prejuízo de atuação vigorosa e conjunta no campo fiscalizatório/administrativo, provocando a AGENERSA, a Assembleia Legislativa (Alerj) e as instâncias persecutórias do Ministério Público de Defesa do Consumidor (ou mesmo qualquer condômino ou representante legal de todos os condomínio edilícios em tais circunstâncias fáticas - inclusive quanto maior tal questão seja levada ao conhecimento do Judiciário, para caracterizarmos uma relevância jurídica processual de resoluções por demandas repetidas nesse sentido, a título de devida tutela de interesse individual homogêneo ao caso em tela, por meio de medidas processuais judicializáveis como “ação popular” e outros instrumentos processuais adjacentes afins, a disposição do microssistema legal processual de tutelas coletivas em vigor; em derrotabilidade da norma legal fluminense em vigor, considerada como evidente hipótese de “injustiça material”, a título de “lacuna ontológica”; melhor…):


  1. Enfrentamento Central: Agressão ao Princípio Fundamental da Modicidade Tarifária e Supressão da Capacidade Contributiva: As operadoras de fornecimento contínuo de água tratada e captação de efluentes exercem e fruem dos privilégios inerentes aos monopólios naturais impositivos. Neste contexto, o inciso I do caput do artigo 29 exarado na Lei Federal nº 11.445/2007 prescreve, de forma mandatória e imperativa, que o desenho arquitetônico da estrutura perene de remuneração pecuniária e cobrança não deve almejar exclusivamente o lucro cego e a compensação do balanço econômico-financeiro dos contratos, mas, impreterivelmente, harmonizar tais interesses através do filtro humanístico da modicidade tarifária11. As contas mensais recém-emitidas, recheadas por saltos irreais situados nas bandas de 1.000% a inconcebíveis 2.900% de oneração sobre um produto comoditizado cujo custo basal e cuja entrega hidráulica mantiveram-se inalterados na ponta física, rasgam frontalmente as balizas da equidade e anulam o primado constitucional da isonomia, sem embargos1. No palco de litígios jurídicos, as petições e tutelas de urgência deverão inocular o questionamento agudo do quantum debeatur tarifado originário no Decreto Estadual nº 48.225 (chancelado pela AGENERSA). Impõe-se requerer a nomeação de "experts" imparciais e a promoção exauriente de perícia técnico-atuarial contábil e de economia de redes. O fito processual cristalino será o de provar matematicamente que a estagnação e conservação omissiva da presente cota tarifária basal estratosférica, associada perversamente com a adoção recente da prerrogativa multiplicadora oriunda do STJ, não remunera os dispêndios com as estações e mananciais, mas fabrica lucros exorbitantes, consubstanciando grave enriquecimento institucional e estatal desprovido e expurgado de causa válida;


  1. Instrumentalização Indispensável do Código de Defesa do Consumidor (CDC) - Arguição de Vantagem Manifestamente Excessiva: Mesmo as concessões públicas submetem-se aos contornos protetivos implacáveis. Sob as robustas orientações abrigadas pelos incisos V e X atinentes ao artigo 39, coligados com as diretrizes de nulidade e intervenção estatal materializadas no inciso IV do artigo 51, todos encartados no códice consumerista pátrio, consolida-se como preceito jurídico abusivo inegociável a deflagração e a perpetuação unilateral, e desprovida de lastro ou justa causa efetiva, de sobressaltos e elevações predatórias de preços fixados13. Exigir coercitivamente que o gestor de uma instalação mercantil ou centro executivo pague e quite compulsoriamente os encargos calculados ficticiamente em 3.880 metros cúbicos () de águas vertidas, quando inexiste hesitação pericial e indene de comprovações de que aquele polo drenou restritamente da rede estatal singelos 129 metros cúbicos (), é um atestado palpável, gravíssimo e incontroverso de espúria abusividade material, configurando autêntico confisco do ente patrimonial de caráter frontalmente subversivo à ordem econômica constitucional do país1. A judicialização não se prenderá ao aniquilamento abstrato da fórmula do cálculo multiplicador, mas cingirá, prioritariamente, pela suspensão do excesso, a busca por tutelas inibitórias ou cautelares liminares para mitigar os faturamentos em valores irreais, ancorando depósitos judiciais parciais restritos à métrica razoável anterior, obstando-se, sob multa coercitiva severa, os cortes indevidos ou interrupções de prestação no condomínio pelo inadimplemento contestado e acobertado;


  1. Investigação da Falha Congênita e Denúncia da Omissão Institucional Deliberada do Agente Regulador (AGENERSA): Uma terceira senda construtiva insere-se no litígio institucional, mediante lides transversais que incluam e condenem solidariamente, ou acionem compulsoriamente o corpo estatal deliberativo que validou as matrizes. Conforme fartamente exibido pelos levantamentos acuradamente acostados no bojo (vide Páginas Comparativas de 9 a 12), em absoluta conformidade perante os territórios de outros entes federativos — em cenários onde os Superiores Tribunais já condescendiam isoladamente com a tese antes de sua padronização ou, essencialmente, onde as Agências Locais (como SABESP, ARSAE-MG, COPASA, AGEPAR, SANEPAR) não quedaram prostradas —, registrou-se um movimento proativo, cauteloso e antecipado de maturação e evolução tarifária rumo ao sofisticado, justo e palatável método da tarifação e decantação "bifásica", implementando a separação e partição exata da exigência da parcela fixa módica (encarregada unicamente por manter os canos, tratamentos contínuos e relógios) perante a genuína medição da volumetria gasta (taxação pelo comportamento degradador individual)1. Contrário ao senso e às melhores práticas gerenciais de agências, o Estado do Rio de Janeiro submeteu passivamente milhares de cidadãos cativos a um massacre. Ações Civis Públicas (ACP), encabeçadas em caráter de consórcio ou legitimação extraordinária por Defensorias, entes do "parquet" e colossais consórcios de condomínios da Baixada à Zona Sul, detêm robustez e pertinência probatória bastante para forçar liminarmente o aparelho burocrático e executivo da AGENERSA a desencadear as engrenagens excepcionais de "Revisão Tarifária Extraordinária", no intuito urgente, compulsório e profilático de drenar as matrizes contratuais e expurgar a "gordura tarifária", reduzindo a unidade multiplicável e equalizando a realidade carioca aos padrões aceitáveis, sem malferir ou abalar, concomitantemente, os mandamentos emitidos e inibidores encartados nas ementas recentes do Superior Tribunal de Justiça;


  1. A Tese da Impossibilidade Fática Absoluta de Adimplemento Extensivo da Lei nº 13.312/2016 (A Exceção Clássica e Concreta da Ruína Imobiliária e da Falta de Justa Causa Técnica): Para os síndicos de complexos e residenciais antigos, pregressos ao ano vigente de 2021, que eventualmente perquirirem escapar das nefastas margens e das armadilhas tarifárias originárias do hidrômetro unificado almejando individualizar e reformular toda sua intrincada malha de encanamento, os fundamentos doutrinários necessitarão resgatar os preceitos de prudência e limites estatuídos na Lei 13.312/2016. Na jurisprudência porvindoura, os magistrados debruçar-se-ão perante provas periciais onde retroagir compulsoriamente a exigência e cobrar pesadas extorsões pela não adesão esbarra na completa inviabilidade civil do parque de concreto das metrópoles, com intervenções insustentáveis, impeditivas, lesivas às estruturas e de cifras vultosas impagáveis aos condôminos na planta de imóveis velhos16. Posto isso, a conduta arbitrária punitiva é juridicamente irrazoável — o morador ou consumidor não escolheu estar amarrado e aprisionado aos limites da plumada única coletiva herdada dos construtores do século findado. Tal excludente e vulnerabilidade escancaram ainda mais a crueldade implícita contida e transbordada na aplicação sem calibragem dos ditames do Decreto 48.225.


Em síntese consolidada, evidencia-se, em última instância, que o provimento hermenêutico recém-encampado através das diretrizes balizadoras inauguradas na ratificação do Tema 414 e no acórdão emblemático encabeçado no STJ figurou não como um golpe malfadado de má-fé da mais alta instância judicante nacional, mas sim, a rigor e indubitavelmente, como um movimento sistêmico incontornável e essencial que objetivava salvaguardar, uniformizar e pacificar as conflitantes vertentes no direito dos certames de concessão sanitária4. 


Contudo, por funesta tragédia executiva, essa diretriz foi aterrissar sobremaneira em um lamaçal, caindo inexoravelmente sobre os escombros e sob o teto inóspito de um ambiente e superestrutura de delegações da Agência Reguladora (AGENERSA) integralmente deformado e eivado por omissões legislativas que deturpou todo o repasse de custos na fatia imposta às subconcessões da finada estatal CEDAE7. Consecutivamente, este terreno movediço fabricou uma indesejável excrescência tributária-jurídica, com efeitos predatórios.


Portanto, perante cortes cíveis, agências fiscalizadoras, gabinetes regulatórios e nos foros superiores interligados, os litígios ajuizados por advogados condominiais não podem mais ostentar teses genéricas baseadas na ilegitimidade do repasse autônomo individual. 

Deverão, em uma autêntica reinvenção da vanguarda estratégica das ações no Estado fluminense, canalizar todos os canhões dialéticos rumo ao objetivo cirúrgico de desconstituir os componentes fixos pregressos e a sobretaxa do valor métrico unitário tarifado na matriz basilar das tabelas, pleiteando de forma indene, cristalina, intransigente e exaustiva a imediata purgação matemática de um preço injusto que ofende e dilacera a capacidade produtiva e a subsistência coletiva de quem coabita as metrópoles brasileiras e submete-se ao modelo engessado do monopólio dos provedores primários de acesso hídrico universal, conforme propomos a seguir.


12. MEDIDAS PROCESSUAIS CABÍVEIS à espécie


A análise das vias judiciais aplicáveis ao atual cenário tarifário fluminense demonstra que o enfrentamento da crise deve transitar da simples impugnação do método de multiplicação (já validado pelo Superior Tribunal de Justiça na revisão do Tema 414) para o questionamento incisivo da estrutura regulatória e da tabela de preços imposta pela AGENERSA. 


Sob a ótica do direito processual contemporâneo, busca-se demonstrar a "lacuna ontológica" e aplicar a "derrotabilidade" (defeasibility) da norma estadual, evidenciando que a aplicação literal do Decreto Estadual nº 48.225/2022, após a liberação da multiplicação, resulta em grave injustiça material e vantagem excessiva.   


Para tutelar esses interesses individuais homogêneos e criar relevância jurídica através de demandas estruturais, o microssistema processual coletivo oferece os seguintes instrumentos:


1. Ação Popular e a Proteção da Moralidade Administrativa (Tema 836 do STF - vide ANEXO)

A Ação Popular, regida pela Lei nº 4.717/1965 e pelo art. 5º, LXXIII, da Constituição Federal, pode ser ajuizada por qualquer cidadão em pleno gozo de seus direitos políticos. No atual panorama da crise hídrica do Rio de Janeiro, o foco deve recair sobre a ofensa à moralidade administrativa. O Supremo Tribunal Federal (STF), ao julgar o Tema 836 da Repercussão Geral, pacificou o entendimento de que é cabível e dispensável a prova de prejuízo financeiro direto aos cofres públicos para o ajuizamento da Ação Popular, bastando a demonstração de lesão à moralidade administrativa.   


Aplicação ao caso: A tese sustentaria que a omissão deliberada da AGENERSA em não promover uma revisão tarifária extraordinária para readequar a tarifa-base — após a mudança de entendimento do STJ que gerou aumentos de mais de 1.000% aos usuários — fere os princípios da moralidade, eficiência e finalidade pública, propiciando o enriquecimento sem causa de entes privados sob a chancela estatal.


2. Ação Civil Pública (ACP) e a Modicidade Tarifária

A ACP é o veículo processual clássico para a tutela de interesses individuais homogêneos de milhares de condomínios, podendo ser movida pelo Ministério Público, Defensoria Pública ou por associações civis representativas.   


Aplicação ao caso: A fundamentação deve se ancorar na violação direta ao Código de Defesa do Consumidor (art. 39, incisos V e X), que proíbe a exigência de vantagem manifestamente excessiva, e no princípio fundamental da modicidade tarifária, expressamente previsto no art. 29 da Lei Federal nº 11.445/2007 (Marco Legal do Saneamento Básico). O objetivo liminar da ACP seria compelir o ente regulador a expurgar a "gordura tarifária" pré-existente na matriz contratual, adequando os valores fluminenses aos padrões de razoabilidade praticados em outros estados.   


3. Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas (IRDR)

Diante da inevitável pulverização de ações individuais idênticas nos juizados e varas cíveis do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ), a provocação para a instauração de um IRDR (art. 976 do Código de Processo Civil) é uma manobra estratégica essencial. O TJRJ possui histórico de admissão de IRDRs justamente para debater metodologias de cobrança, multiplicadores de economias e a legalidade das práticas da CEDAE/AGENERSA e suas sucessoras.   


Aplicação ao caso: O IRDR permitiria suspender os processos pulverizados e fixar uma tese vinculante estadual. A tese proporia que, embora a jurisprudência do STJ tenha autorizado a cobrança por economia, sua incidência matemática e cega sobre a atual tabela defasada da AGENERSA autoriza o Judiciário a aplicar a derrotabilidade da norma. Assim, afasta-se temporariamente a incidência da tabela integral para evitar o confisco, até que o mérito regulatório seja sanado.   


4. Tutelas Inibitórias, Depósito Judicial e Prova Atuarial

No bojo dessas medidas processuais, a obtenção de tutelas de urgência de natureza inibitória é indispensável. O pedido deve focar no direito de o condomínio realizar o depósito judicial apenas do valor incontroverso (baseado no consumo efetivamente auferido ou na média histórica prévia), com a consequente determinação judicial proibindo as concessionárias de interromperem o abastecimento de água ou de inscreverem o CNPJ do condomínio em cadastros de inadimplentes.


Assim e por fim, para que a tese da "injustiça material" prospere, as petições iniciais devem requerer prontamente a produção de prova pericial técnico-atuarial e de economia de redes. O objetivo fático é provar que a cobrança por volumes fictícios (frequentemente superiores a 3.000 metros cúbicos não consumidos) não reflete os custos de manutenção da infraestrutura fixa das operadoras.


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OBSERVAÇÃO

O presente artigo (paper) se trata de um rascunho para os demais fins oficiais e acadêmicos, dependendo de critérios de validação, como análise editorial para publicação em periódicos de autoridade no respectivo segmento científico em exposição, bem como de análise de pares, para convalidação dos fundamentos e argumentos trazidos ao presente artigo.


***


Referências citadas

  1. Apresentação - 14-08-2024 - Vision.pdf

  2. súmula 175 - Terminal - Sophia Biblioteca Web - TJRJ, https://www3.tjrj.jus.br/sophia_web/acervo/detalhe/150849?integra=1

  3. 1 APELAÇÃO CÍVEL Nº 0192312-34.2019.8.19.0001 ... - TJRJ, https://www3.tjrj.jus.br/gedcacheweb/default.aspx?UZIP=1&GEDID=0004F972206A7456933415B13DFA5C6A9B7FC5185B625108

  4. ACÓRDÃO - TJRJ, https://www3.tjrj.jus.br/gedcacheweb/default.aspx?UZIP=1&GEDID=0004689AE7F072BE92E3AEB6E08F48FC791BC519624A4D0F

  5. Decreto Estadual - Rio de Janeiro - Alerj, http://alerjln1.alerj.rj.gov.br/decest.nsf/532ff819a4c39de50325681f0061559e/c533a4a11c79ed8d03256b790066397e

  6. Legislação e Normas Técnicas | Agenersa, https://www.rj.gov.br/agenersa/legislacao-e-normas-tecnicas

  7. BALANCO CEDAE 2021-JORNAL.cdr - Googleapis.com, https://storage.googleapis.com/site-cedae/balancos/BALANCO%20CEDAE%202021-JORNAL-color.pdf

  8. Prefeitura Municipal de Paraíba do Sul, https://www.rj.gov.br/agenersa/sites/default/files/arquivos_paginas_basicas/CACEditalRETIFICADO.pdf

  9. Apelação Cível nº 0037903-32.2021.8.19.0001 - TJRJ, https://www3.tjrj.jus.br/gedcacheweb/default.aspx?UZIP=1&GEDID=000412E55C4B63E7526B2B84B17FA13D470EC51919012A0A

  10. STJ revisa tese sobre tarifa em condomínio com hidrômetro único, https://www.stj.jus.br/sites/portalp/Paginas/Comunicacao/Noticias/2024/27062024-Primeira-Secao-revisa-tese-sobre-tarifa-de-agua-e-esgoto-em-condominios-com-hidrometro-unico.aspx

  11. STJ altera cálculo de tarifa para condomínios sem hidrômetro, https://www.migalhas.com.br/depeso/411585/stj-altera-calculo-de-tarifa-para-condominios-sem-hidrometro

  12. Forma de cálculo da tarifa progressiva dos serviços de fornecimento, https://buscadordizerodireito.com.br/jurisprudencia/12839/forma-de-calculo-da-tarifa-progressiva-dos-servicos-de-fornecimento-de-agua-e-de-esgoto-sanitario-em-unidades-compostas-por-varias-economias-e-hidrometro-unico

  13. Informativo STJ 818 Comentado - Estratégia Concursos, https://www.estrategiaconcursos.com.br/blog/informativo-stj-818-comentado/

  14. REsp 1.937.887-RJ - STJ - Informativos Trilhante, https://informativos.trilhante.com.br/julgados/stj-resp-1937887-rj

  15. Novas Teses Jurídicas para a Cobrança de Tarifa Mínima ... - AASP, https://www.aasp.org.br/espaco-aberto/novas-teses-juridicas-para-a-cobranca-de-tarifa-minima-em-condominios-revisao-do-tema-414-stj/

  16. O que diz a lei sobre individualização da água em condomínios?, https://atlantida-adm.com.br/_site/o-que-diz-a-lei-sobre-individualizacao-da-agua-em-condominios/

  17. Já está em vigor: condomínios são obrigados a instalar medidores, https://www.em.com.br/emfoco/2026/05/29/ja-entrou-em-vigor-condominios-sao-obrigados-a-instalar-medidores-individuais-de-agua-ate-o-fim-do-ano/

  18. os novos edifícios passaram a ser obrigados a instalar hidrômetro, https://clickpetroleoegas.com.br/uma-lei-federal-sancionada-em-2016-e-em-vigor-desde-2021-mudou-a-conta-de-agua-nos-predios-do-brasil-os-novos-edificios-passaram-a-ser-obrigados-a-instalar-hidrometro-individual-btl96/

  19. Hidrômetros nas novas edificações: prazo de adaptação à Lei, https://secovi.com.br/hidrometros-nas-novas-edificacoes-prazo-de-adaptacao-a-lei-13312-2016/

  20. Individualização de água em condomínio: como fazer?, https://mineiras.com.br/individualizacao-de-agua-em-condominio-como-fazer/

  21. Nova lei obriga medição individual de água em condomínios, https://fibersals.com.br/blog/nova-lei-obriga-medicao-individual-de-agua-em-condominios/

  22. Lei do hidrômetro: como ficam os prédios antigos? - Cimento Itambé, https://www.cimentoitambe.com.br/hidrometro-predios-antigos/

  23. Medição individualizada de água em condomínios - EOS Systems, https://eossystems.com.br/blog/medicao-individualizada-de-agua/

  24. Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro 14ª CÂMARA ... - TJRJ, https://www3.tjrj.jus.br/gedcacheweb/default.aspx?UZIP=1&GEDID=0004052A7712DD395FAA221A185B52C968A7C5184D44601B

  25. Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro Gabinete da Terceira, https://www3.tjrj.jus.br/gedcacheweb/default.aspx?UZIP=1&GEDID=0004A6AF58EDEF992660AF34648AC3FD158EC5183A3F3418

  26. AGENERSA - Governo do Estado do Rio de Janeiro, https://www.rj.gov.br/agenersa/sites/default/files/arquivos_paginas_basicas/P10_B2_R35_JUN_26.pdf

  27. 25/06/2024 - Jurisprudência do STJ, https://scon.stj.jus.br/SCON/jurisprudencia/toc.jsp?O=JT&b=ACOR&livre=202101437858.REG.%20E%2025/06/2024.FONT.





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  • ANEXO (minuta de AÇÃO POPULAR):


A presente minuta possui caráter estritamente educativo e teórico, visando ilustrar a estruturação da tese jurídica debatida. Para o ajuizamento de demandas, adequação ao caso concreto e tomada de decisões legais, recomenda-se expressamente a consulta e o patrocínio de um advogado especialista ou da Defensoria Pública.

Abaixo segue a estrutura de uma Petição Inicial de Ação Popular baseada na tese da ofensa à moralidade administrativa e omissão regulatória.


(...)


EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO DA ___ VARA DE FAZENDA PÚBLICA DA COMARCA DA CAPITAL DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO


[NOME DO CIDADÃO AUTOR], brasileiro(a), [estado civil], [profissão], portador(a) da Cédula de Identidade RG nº [0000] e inscrito(a) no CPF sob o nº [0000], no pleno gozo de seus direitos políticos, conforme comprova a certidão de quitação eleitoral e a cópia do Título de Eleitor nº [0000] (anexos), residente e domiciliado(a) na [Endereço completo], atuando em nome próprio, vem, respeitosamente, à presença de Vossa Excelência, com fulcro no artigo 5º, inciso LXXIII, da Constituição Federal, e na Lei nº 4.717/1965, propor a presente


AÇÃO POPULAR COM PEDIDO DE TUTELA DE URGÊNCIA (INIBITÓRIA)


em face da AGÊNCIA REGULADORA DE ENERGIA E SANEAMENTO BÁSICO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO (AGENERSA), autarquia estadual; do ESTADO DO RIO DE JANEIRO, pessoa jurídica de direito público interno; e da [NOME DA CONCESSIONÁRIA - ex: Águas do Rio ou Iguá], pessoa jurídica de direito privado, pelos fatos e fundamentos de direito a seguir expostos:


I. DO CABIMENTO E DA LEGITIMIDADE ATIVA


A Ação Popular é o instrumento constitucional colocado à disposição de qualquer cidadão visando anular ato lesivo ao patrimônio público ou à moralidade administrativa.


O Supremo Tribunal Federal (STF), ao julgar o Tema 836 da Repercussão Geral, pacificou o entendimento de que a ação popular é cabível para combater atos lesivos à moralidade administrativa, sendo dispensável a comprovação prévia de prejuízo financeiro ou dano material direto aos cofres públicos. O autor junta nesta oportunidade seu título de eleitor, preenchendo o requisito da cidadania exigido pela Lei nº 4.717/1965.


II. DA SÍNTESE DOS FATOS


Historicamente, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) proibia a cobrança da tarifa mínima multiplicada pelo número de economias em condomínios de hidrômetro único. Por essa razão, a tarifa-base fixada no Estado do Rio de Janeiro pelo Decreto Estadual nº 48.225/2022 (e validada pela AGENERSA) sempre conteve um valor artificialmente elevado para compensar a impossibilidade de multiplicação e garantir o equilíbrio dos contratos de concessão.


Ocorre que, em 25 de junho de 2024, o STJ publicou o acórdão de revisão do Tema 414, passando a considerar lícita a adoção da cobrança de tarifa mínima multiplicada pelo número de unidades (economias) em condomínios com um único medidor.


Ato contínuo, as concessionárias rés passaram a aplicar a multiplicação autorizada pelo STJ diretamente sobre a tabela hipertrofiada da AGENERSA. O resultado fático é o faturamento de milhares de metros cúbicos de água fictícia ("água de vento"), gerando aumentos confiscatórios que superam 2.900% nas faturas dos condomínios fluminenses.


A AGENERSA e o Estado do Rio de Janeiro, no entanto, quedaram-se inertes. Omitiram-se no dever de instaurar uma Revisão Tarifária Extraordinária para expurgar a "gordura" da matriz basilar. A manutenção do Decreto Estadual nº 48.225/2022 nas atuais circunstâncias gerou uma "lacuna ontológica", tornando a cobrança imoral e desproporcional.


III. DO DIREITO


3.1. Da Ofensa à Moralidade Administrativa e da Omissão Institucional A inércia da agência reguladora em não readequar a tarifa diante da guinada jurisprudencial do STJ configura omissão lesiva à moralidade administrativa. O STF e o STJ já assentaram que o influxo do princípio da moralidade traduz-se como fundamento autônomo para o exercício da Ação Popular. Ao chancelar o faturamento irreal e o enriquecimento sem causa da concessionária privada às custas da economia popular, a AGENERSA subverte a finalidade pública de sua atuação.


3.2. Da Derrotabilidade Normativa (Defeasibility) e da Injustiça Material Pleiteia-se a declaração incidental de derrotabilidade do Decreto Estadual nº 48.225/2022. Embora a norma seja válida e a multiplicação tenha sido autorizada pelo STJ, a conjugação de ambas no cenário fluminense cria uma vantagem manifestamente excessiva (afronta ao art. 39, V e X, do Código de Defesa do Consumidor). A regra deve ter sua aplicação afastada para evitar a extorsão legalizada.


3.3. Da Violação ao Princípio da Modicidade Tarifária O artigo 29 da Lei Federal nº 11.445/2007 (Marco Legal do Saneamento) estabelece que a estrutura de remuneração e cobrança considerará parâmetros justos e sociais. A omissão das autoridades estaduais aniquila o primado da modicidade tarifária, exigindo intervenção judicial para que a agência implemente um modelo sustentável, a exemplo da tarifa bifásica aplicada em outros Estados.


IV. DA TUTELA DE URGÊNCIA (INIBITÓRIA)


Estão presentes os requisitos do fumus boni iuris (probabilidade do direito, evidenciada pela distorção tarifária e proteção da moralidade no Tema 836/STF) e do periculum in mora (risco iminente de cortes de água e asfixia financeira de milhares de cidadãos fluminenses).


Requer-se, liminarmente, a suspensão dos efeitos da aplicação irrestrita do multiplicador sobre a tabela atual do Decreto 48.225/2022, autorizando-se que os condomínios afetados realizem o pagamento/depósito com base estritamente no consumo real aferido ou na média histórica anterior a junho de 2024, abstendo-se a concessionária de promover cortes de fornecimento.


V. DOS PEDIDOS


Ante o exposto, requer a Vossa Excelência:


a) O deferimento da tutela de urgência inaudita altera parte, para suspender a eficácia da tabela tarifária omissiva em relação à sua multiplicação cega, autorizando o faturamento pelo consumo real (ou depósito judicial do montante anterior) até o deslinde do feito, sob pena de multa diária; 


b) A citação dos Réus e a intimação do ilustre representante do Ministério Público, para intervir no feito; 


c) A produção de todas as provas em direito admitidas, especialmente a perícia técnico-atuarial contábil e de economia de redes, visando provar o desequilíbrio e a abusividade da composição da tarifa mínima do Rio de Janeiro; 


d) Ao final, a procedência total do pedido para declarar a nulidade da omissão administrativa da AGENERSA, condenando as rés na obrigação de fazer consistente na deflagração imediata de Revisão Tarifária Extraordinária, expurgando a "gordura tarifária" pré-existente no Decreto Estadual nº 48.225/2022 e instituindo modelo consentâneo com a modicidade tarifária; 


e) A isenção de custas e ônus sucumbenciais, salvo comprovada má-fé, conforme art. 5º, LXXIII, da Constituição Federal.


Dá-se à causa o valor de R$ [Valor de alçada, ex: 1.000,00], apenas para fins fiscais.


Estes são os termos do presente pleito.


[Local, Data].

[NOME DO ADVOGADO] OAB/[UF] [NÚMERO]



 

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Sobre a

 “Pré Compreensão Praxiológica”: uma proposta de como podemos compreender e interpretar 

a tudo e a todos.




ADAM TELLES DE MORAES 


Habilitação Nacional de Advogado - OAB 

(Código da credencial: 155744/RJ) 


Professional development certificate in Global Business Management - Massachusetts Institute of Business - MIB 

(Código de credencial 7F40D3D8-0AF7-4F30-AFFE-38B39EC7ECD3)



RESUMO


O presente artigo científico jurídico, estruturado sob as diretrizes e o rigor analítico inerente à teoria do conhecimento e à filosofia do direito, propõe a formulação de um paradigma hermenêutico inédito: o método "Finalístico-Biográfico". A investigação inicia-se por uma densa análise apriorística de natureza ontológica e epistemológica, revisitando o existencialismo sartriano, a semiótica dos signos, significados e significantes, e a separação kantiana entre fenômenos e nômenos, com o escopo de delimitar as fronteiras estruturais da cognição e da interpretação humana. Estabelecida a premissa de que a verdade absoluta é inalcançável à razão pura, a pesquisa adentra a arquitetura sistêmica das metodologias e tecnologias científicas, desaguando na análise a posteriori praxiológica. Sob a ótica da Praxiologia de Ludwig von Mises, a ação humana é compreendida como um axioma apriorístico, dedutivo e inegável, no qual todo indivíduo — inclusive o magistrado e o administrador público — age deliberadamente sob condições de escassez para maximizar sua utilidade marginal. Ao transpor essa lente analítica para a Hermenêutica Jurídica Constitucional contemporânea, o estudo descontrói o positivismo ingênuo e a ilusão da neutralidade judicial. Propõe-se que a legitimidade da decisão jurídica está materialmente atrelada à ontologia e ao viés ideológico da autoridade, o qual foi democraticamente sabatinado (sua biografia). A ruptura imotivada dessa simetria ideológica pelo julgador no caso concreto configura uma "tresdestinação ideológica", caracterizando quebra das regras do jogo. Por fim, avalia-se as severas implicações normativas de tal conduta, notadamente a nulidade do ato decisório e sua potencial subsunção como dolo específico na Lei de Improbidade Administrativa (Lei nº 14.230/2021) ou como Crime de Responsabilidade (Lei nº 1.079/1950), a depender dos desenhos institucionais vigentes e futuros.


Palavras-chave: Praxiologia; Hermenêutica Constitucional; Epistemologia; Ação Humana; Improbidade Administrativa.



ABSTRACT


This scientific legal paper, structured under the guidelines and analytical rigor inherent in the theory of knowledge and philosophy of law, proposes the formulation of an unprecedented hermeneutic paradigm: the "Finalistic-Biographical" method. The investigation begins with a dense a priori ontological and epistemological analysis, revisiting Sartrean existentialism, the semiotics of signs, meanings, and signifiers, and the Kantian separation between phenomena and noumena, aiming to delimit the structural boundaries of human cognition and interpretation. Having established the premise that absolute truth is unattainable to pure reason, the research delves into the systemic architecture of scientific methodologies and technologies, culminating in an a posteriori praxeological analysis. From the perspective of Ludwig von Mises's Praxeology, human action is understood as an a priori, deductive, and undeniable axiom, in which every individual—including judges and public administrators—acts deliberately under conditions of scarcity to maximize their marginal utility. By transposing this analytical lens into contemporary Constitutional Legal Hermeneutics, the study deconstructs naive positivism and the illusion of judicial neutrality. It is proposed that the legitimacy of a legal decision is materially linked to the ontology and ideological bias of the authority, which has been democratically vetted (their biography). The unmotivated rupture of this ideological symmetry by the adjudicator in a specific case configures an "ideological misdirection" (tresdestinação ideológica), characterizing a breach of the rules of the game. Finally, the severe normative implications of such conduct are evaluated, notably the nullity of the decision-making act and its potential subsumption as specific intent under the Administrative Improbity Law (Law No. 14,230/2021) or as a Crime of Responsibility (Law No. 1,079/1950), depending on current and future institutional designs.


Keywords: Praxeology; Constitutional Hermeneutics; Epistemology; Human Action; Administrative Improbity.




1. INTRODUÇÃO


A evolução da ciência jurídica defronta-se hodiernamente com uma crise epistemológica e metodológica sem precedentes. O esgotamento do positivismo jurídico estrito, que confinava o magistrado à função de "boca da lei" mediante a aplicação de silogismos lógicos fechados, cedeu espaço ao pós-positivismo e às teorias da argumentação. Contudo, essa transição, ao abrir as comportas para a normatividade dos princípios e para o reconhecimento da carga valorativa do intérprete1, produziu como efeito colateral um cenário de extrema instabilidade institucional, marcado pelo subjetivismo exarcerbado, ativismo judicial e pela imprevisibilidade das decisões nos tribunais superiores. O cerne do problema reside no fato de que a hermenêutica tradicional negligencia a natureza fundamental do intérprete enquanto agente humano volitivo, submetido a escassez, interesses próprios e imperativos de utilidade marginal.


Para solucionar essa aporia, o presente artigo desenvolve a teoria da "Pré Compreensão Praxiológica", uma superestrutura filosófica que amalgama a ontologia existencial, a epistemologia crítica e a praxiologia — a ciência da ação humana formulada por Ludwig von Mises3. O propósito é demonstrar que qualquer tentativa de interpretar a lei, a conduta humana ou os fenômenos sociais deve partir da premissa inexorável de que todo ato é intencional e direcionado a um fim. A partir desse postulado estrutural, o estudo propõe um modelo interpretativo denominado método hermenêutico "Finalístico-Biográfico". Este modelo não apenas reconhece a pré-compreensão ideológica do julgador como inevitável, mas a eleva à condição de baliza limitadora de sua própria atuação, exigindo coerência biográfica entre a decisão presente e o histórico ideológico que legitimou a investidura da autoridade.


Nas seções subsequentes, o ensaio percorrerá uma rigorosa trajetória investigativa, iniciando-se pelas bases apriorísticas da ontologia e da epistemologia, categorizando o conhecimento sistêmico, para então aprofundar-se nos teoremas da ação humana praxiológica. Finalmente, esse arcabouço será diretamente aplicado à dogmática jurídica e ao direito sancionador, analisando-se as implicações de uma decisão ideologicamente tresdestinada face à nova disciplina da improbidade administrativa (Lei nº 14.230/2021) e aos crimes de responsabilidade política.



2. ANÁLISE APRIORÍSTICA ONTOLÓGICA (ONTOLOGIA)


A construção de qualquer metodologia hermenêutica válida e universal exige, primeiramente, o desvelamento da natureza do ser e de como a consciência humana interage com o universo ao seu redor. A ontologia, enquanto ramo basilar da metafísica, fornece os contornos apriorísticos que formatam as possibilidades de interpretação do mundo.



2.1 Existencialismo Sartriano e Existencialismo Essencialista


O primeiro pilar dessa estrutura ontológica repousa sobre o pensamento existencial. A máxima do existencialismo sartriano postula que, para o ser humano, "a existência precede a essência"6. Diferentemente de um objeto inanimado que é concebido com um propósito teleológico predeterminado (uma essência) antes de ser fabricado, o homem é primeiramente lançado no mundo, existindo em uma liberdade angustiante. Somente por meio de suas ações, escolhas e interpretações deliberadas é que o indivíduo constrói sua essência e define sua identidade perante o tecido social8. Esta premissa é vital para a ciência jurídica, pois afasta o determinismo mecanicista: o legislador, o juiz e o cidadão não são autômatos operando scripts biológicos invioláveis; são agentes ontologicamente livres que moldam o direito e a sociedade através do exercício contínuo da vontade.


No entanto, o exercício irrestrito dessa liberdade volitiva defronta-se com um mundo fenomênico estruturado. O que denominamos de "Existencialismo Essencialista" reconhece que, embora o homem seja existencialmente livre para atribuir sentidos, a tessitura da realidade impõe balizas materiais e lógicas inescapáveis9. Para que o indivíduo organize a sua compreensão do universo físico e a convivência gregária, a sua consciência decodifica a realidade tricotomizando-a em signos, significados e significantes, formando a superestrutura de qualquer processo comunicativo ou interpretativo.


2.2 Signos, Significados e Significantes


A apreensão da realidade não se dá de forma amorfa, mas através de uma arquitetura semiótica profunda, aplicável tanto à biologia quanto ao Direito:


  • Signos (A Descrição da Realidade): Consistem na infraestrutura primária e física da informação, os vetores brutos de dados. Os signos são códigos literais desprovidos, em seu estado puramente material, de intencionalidade inerente9. Na física e na biologia, manifestam-se como os genes, as sequências de nucleotídeos do DNA que descrevem a receita morfológica da vida. No campo da interação humana, os signos são os sons, as letras, os números, os tokens computacionais, as palavras impressas no papel de um Diário Oficial ou as expressões lexicais codificadas. Eles descrevem a realidade subjacente aguardando processamento.


  • Significados (A Compreensão da Verdade Real): O significado transcende o signo ao lhe atribuir a inexorabilidade da lei natural. Trata-se da compreensão sintática e lógica inconteste; as verdades algorítmicas, os axiomas matemáticos e os universais naturais. O significado de uma equação ou de uma reação química não depende da opinião do observador; ele impõe-se como uma verdade real e dedutível. Representa a mecânica íntima e objetiva do funcionamento do cosmos e das premissas lógicas puras.


  • Significantes (A Interpretação das Verdades Virtuais): É nesta terceira dimensão que habita a complexidade do agir humano e a gênese do Direito. Significantes são construções conjecturais, as opiniões e as interpretações moldadas pelas culturas. Englobam os "memes" sociológicos, as narrativas civilizacionais, os valores éticos e, sobretudo, os "imperativos categóricos" ou universais artificiais. Uma norma jurídica não é um "significado" absoluto como a lei da gravidade; ela é um "significante" construído (uma verdade virtual) para balizar a conduta e mitigar o caos social.


O magistrado, ao defrontar-se com um código legal (signo), não desvenda uma lei física imutável (significado), mas sim realiza uma ponderação volitiva (significante) que só pode ser compreendida pela lente de sua pré-compreensão existencial. A lei não tem autossuficiência de sentido; seu sentido é sempre fruto da imputação de um agente.



3. ANÁLISE A POSTERIORI EPISTEMOLÓGICA (EPISTEMOLOGIA)


Enquanto a ontologia cuida do ser e das estruturas da existência, a epistemologia delimita a validade, a origem e os limites do próprio conhecimento. A legitimação do poder de dizer o direito (jurisdição) depende de qual teoria do conhecimento prevalece em um dado momento histórico. O percurso evolutivo da epistemologia demonstra a inexorável transição da crença no alcance da "verdade absoluta" para a consciência das restrições cognitivas humanas.


3.1 Conhecimento Empírico e Conhecimento Criacionista


O Conhecimento Empírico representou o estágio mais primitivo e instintivo da apreensão da realidade, calcado na observação fenomênica imediata da causalidade factual (ato e fato; causa e efeito). Essa forma rudimentar de causalismo falha diante da complexidade sistêmica por não discernir uma regra lógica basilar: "correlação não implica necessariamente causalidade". Dois fenômenos podem ser temporalmente coincidentes (como variáveis econômicas e um dado resultado social) sem que um seja a força motriz do outro, exigindo abstrações mais profundas que os simples instintos empíricos.


Como resposta ao caos causalista puro, emergiu o Conhecimento Criacionista ou clássico. Este modelo epistêmico foi marcado pelas tensões na antiguidade greco-romana, especialmente entre os sofistas (que defendiam a retórica relativista) e o método socrático e a dialética aristotélica, que buscavam a Verdade Absoluta subjacente às coisas. 


Por séculos, o ocidente sustentou uma pré-compreensão homogênea, gnóstica e hierarquizada da realidade, onde monarcas, clero ou o Estado absolutista figuravam como detentores legítimos de uma visão de mundo unificadora (Lebenswelt) e do estado de espírito de sua era (Zeitgeist). O Direito emanava de uma fonte tida como detentora dessa Verdade. Contudo, nas atuais sociedades globalizadas, imersas na era da informação descentralizada e submetidas aos desafios inexoráveis da "Pós-Verdade", a imposição de um conhecimento unívoco por autoridades centrais colapsou, não havendo mais sustentação para um monopolista absoluto do sentido.


3.2 O Conhecimento Apriorístico: De Platão a Kant


A percepção da falibilidade cognitiva estrutural humana foi primeiramente eternizada no "Mito da Caverna" de Platão10. A alegoria ilustra prisioneiros acorrentados que tomam por realidade absoluta as meras sombras projetadas no fundo da caverna. As sombras são as aparências fugazes (o mundo sensível), enquanto a verdadeira realidade das "Formas" repousa fora da caverna, no mundo inteligível e perfeito12. A lição platônica é incisiva: a verdade absoluta é inalcançável e distorcida pelos limites de nossa parca percepção.


A filosofia transcendental de Immanuel Kant em sua "Crítica da Razão Pura" organizou esse insight de forma definitiva, consolidando a divisão abissal entre Fenômenos e Nômenos13.


O Nômeno (A Coisa em Si): É a ordem natural das coisas em sua pureza metafísica. Kant demonstrou que tanto os fundamentos últimos do universo (Metafísica da Física) quanto as diretrizes morais absolutas (Metafísica dos Costumes) residem no plano ideal da razão pura. O Nômeno é inalcançável e insensível; nenhuma mente humana consegue enxergar a essência absoluta da "Justiça" ou do "Direito" de forma despida16.


O Fenômeno: Consiste nas verdades alcançáveis e sensíveis aos nossos sentidos, sempre limitadas pelas categorias a priori do nosso entendimento15. Todo objeto de conhecimento é processado por nossos aparatos mentais.


Ao unir o apriorismo ao empirismo, Kant estipula que a "consciência inicial" não capta a realidade pura; ela é um receptáculo preenchido, a posteriori, pela experiência das observações sensoriais (potencializadas por metodologias e tecnologias). O que é observado passa então a ser sistematizado cientificamente e especulado pela filosofia15. A consequência magna para o Direito é que o juiz não acessa o Nômeno da Lei; ele opera inexoravelmente com o Fenômeno jurídico, o qual é perpassado pelas limitações, imperativos e vieses estruturantes de seu próprio entendimento.



4. CONHECIMENTO A POSTERIORI SISTÊMICO (CIÊNCIA)


Superada a ilusão da compreensão da Coisa-em-Si, o intelecto humano dedica-se a dominar os fenômenos através do conhecimento sistêmico, vulgo Ciência. Amparando-se na "Teoria das Revoluções Científicas" de Thomas Kuhn, percebe-se que a ciência opera através de "paradigmas" e "sintagmas", organizando o caos em estruturas compreensíveis20. A ciência a posteriori biparte-se de forma basilar: a ciência como metodologia (focada na compreensão analítica da observação) e a ciência como tecnologia (focada no agir e na intervenção).


A estruturação dessa organização do saber, desde a escolástica até a ciência contemporânea, pode ser visualizada na sistematização fenomênica a seguir:


Classificação Epistemológica

Metodologias (Ato analisado como causa)

Tecnologias (Ato praticado como causa factual)

Objetivo e Relação de Alterabilidade

Ciências Exatas (O antigo Quadrívium)

Causas Naturais: Fenômenos fixos regidos por Leis Físicas, Químicas e Biológicas.


Causas Axiomáticas: Ordem lógico-matemática e linguagens computacionais19.

Tecnologias Observáveis: O foco e a identidade da técnica residem estritamente no objeto (e.g., Álgebra, Engenharias, Paleontologia, Medicina).

Descrevem a PREVISÃO de resultados. Operam no campo fenomenológico restrito do SER. O pesquisador observa as leis, mas NÃO PODE alterá-las pela mera vontade5.

Ciências Humanas (O antigo Trivium)

Causas Categóricas e Virtuais: Ordenamentos sociais, linguagens naturais, éticas, morais, sistemas religiosos e jurídicos.

Tecnologias Conjecturais: O foco e a identidade residem no sujeito praticante (e.g., Gramática, Historiografia, Geografia, Direito, Hermenêutica, Psicologia)21.

Descrevem a PREDIÇÃO de resultados. Operam na normatividade e no campo ético do DEVER SER. O agente atua e PODE alterá-las, moldando condutas22.



Essa divisão clarifica que o Direito e a Hermenêutica pertencem indiscutivelmente às tecnologias conjecturais. Não desvendam constantes universais imutáveis, mas gerem a conduta intersubjetiva através da normatividade.



5. CONHECIMENTO A POSTERIORI ESPECULATIVO (FILOSOFIA)


Enquanto a ciência restringe-se a prever o que é ou predizer normativamente o que deveria ser, a filosofia atua como a vanguarda do conhecimento a posteriori especulativo. Ela expande a matriz conjectural para o plano do abstrato, lidando essencialmente com as possibilidades de resultados, delineando o contorno do "Poder Ser".


É no terreno da filosofia política, do pensamento estratégico e até das macro-ficções que o homem imagina alternativas institucionais, formula utopias e concebe abstrações de valor. A especulação precede a criação normativa. Assim, a heurística de um juiz (sua pré-compreensão existencial) é fortemente balizada pelos arcabouços filosófico-especulativos que formaram seu intelecto, determinando quais "possibilidades" ele considerará razoáveis ou absurdas ao decidir um conflito entre valores sociais intangíveis.



6. ANÁLISE A POSTERIORI PRAXIOLÓGICA (A CIÊNCIA DA AÇÃO)


Se o Direito habita o mundo das ciências conjecturais normativas, é imperativo que sua interpretação seja guiada por um núcleo epistemológico que explique, sem falhas lógicas, o comportamento volitivo. Eis que se faz presente a "Análise a Posteriori Praxiológica", o marco teórico mais robusto já erigido para elucidar os motores da conduta humana, formulado rigorosamente por Ludwig von Mises como alicerce fundacional da Escola Austríaca de Economia3.


6.1 Os Fundamentos do Axioma da Ação Humana


Mises rechaçou a tentativa do positivismo de aplicar às ciências sociais os mesmos métodos estatísticos e experimentais da física (o monismo metodológico). O laboratório das ciências exatas lida com partículas inanimadas desprovidas de propósito. O estudo da sociedade, por outro lado, lida com mentes conscientes. Por isso, a praxiologia foi estruturada como uma disciplina puramente dedutiva e apriorística, cuja validade transcende o tempo e a geografia5.


Seu fundamento único e central é o axioma da ação: "Todo ser humano age deliberadamente para trocar um estado de menor satisfação por outro que considera preferível"3. Trata-se de uma verdade inegável e sintética a priori; qualquer cético que intente refutar ou argumentar contra o fato de que humanos agem propositadamente, estará, através do próprio ato de argumentar, agindo com o propósito deliberado de impor sua visão, incorrendo assim em contradição performativa intransponível24.


A partir deste núcleo monolítico, a praxiologia extrai os teoremas categóricos que governam o universo institucional:


  • Individualismo Metodológico: O agir exige vontade, e a vontade é atributo biológico exclusivo de indivíduos singulares24. Abstrações retóricas coletivas como "O Estado", "O Judiciário", "O Mercado" ou "A Sociedade" não agem, não pensam e não valoram. Tais entes abstratos consistem, empiricamente, na soma de ações, cooperação ou coerção de indivíduos isolados31. Consequentemente, sentenças não são dadas por um "Poder" etéreo, mas por um indivíduo humano ocupando um cargo provisório;


  • Subjetivismo de Valor: A axiologia não é uma propriedade inerente ao objeto (não há significado objetivo universal no valor). A utilidade e os fins almejados derivam das preferências estritamente íntimas e ordinais de cada agente, que variam no tempo e no espaço24;


  • Escassez e Custo de Oportunidade: O ser humano opera no mundo da escassez; os recursos são limitados, e o tempo é o recurso fundamental inelástico. Consecutivamente, cada escolha deliberada de um curso de ação implica no custo inexorável de abdicar da utilidade da segunda melhor alternativa não escolhida3;


  • Preferência Temporal: Como postulado apriorístico, dada a finitude da vida, todo agente humano sempre prefere alcançar seu objetivo no presente a alcançá-lo no futuro distante33;


Assim, com base nos atributos acima depreendidos, inevitável redundarmos nossa interpretação, baseando-se nessa propedêutica, no critério praxiológico determinante de tudo que seja valorizado pelo agir de qualquer comportamento humano voltado para a auto preservação dos próprios interesses: a “utilidade marginal”, como vemos melhor a seguir.


6.2 Utilidade Marginal e a Convalidação nas Razões Práticas


É crucial dissipar um erro recorrente: o uso da praxiologia não reduz o homem à caricatura utilitarista e insaciável do Homo Economicus23. Para Mises, toda ação é racional no instante em que é tomada, pois visa um fim subjetivamente valorado pelo agente naquele exato momento, utilizando os meios que ele julga adequados (por mais equivocados que pareçam a um observador externo)5. Seja o objetivo a maximização de lucro, a caridade, a criação de uma obra de arte ou, no caso do agente público, o senso de justiça, a imposição de poder, a sobrevivência política ou a simples pacificação social35.


A convalidação de todos os resultados práticos na esfera da sociedade opera-se, destarte, pela dinâmica da utilidade marginal. Quando o agente competente profere a prática de um ato, ele sopesa as peculiaridades circunstanciais do caso concreto e decide buscando a utilidade marginal daquele valor perante os interesses em jogo. Para que o fato normativo criado resulte em uma decisão coerente e mantenha o tecido social cooperativo, ele precisa ser materialmente condizente com a "ontologia heurística do viés ideológico" desse indivíduo legalmente incumbido do cargo e formalmente hígido de acordo com a "regra do jogo" institucional pré-definida36.


Na economia catáláxica (mercado livre), as leis da ação resultam no sistema de preços, que permite o cálculo racional de alocação de escassez — o que Mises provou, de forma a priori, ser impossível no modelo socialista planificado, ante a supressão do valor subjetivo balizador. No âmbito do Direito Positivo e das instituições públicas governamentais (que operam pela coerção e não pela troca voluntária), a praxiologia demonstra como as leis criam apenas molduras de restrição (custos), as quais os indivíduos sopesam ao interagir37.



7. A PRAXIOLOGIA E A HERMENÊUTICA CONSTITUCIONAL: O “MÉTODO FINALÍSTICO-BIOGRÁFICO”


A absorção da Pré Compreensão Praxiológica pelo Direito acarreta um abalo sísmico na dogmática jurídica tradicional. Ela destrói a premissa de que a lei é autossuficiente ou de que a autoridade judicial é um mero receptáculo silogístico asséptico39.


Historicamente, hermeneutas de vanguarda perceberam a falência positivista. Gadamer, na sua hermenêutica filosófica, demonstrou magistralmente que o intérprete aborda o texto legal munido de seus preconceitos e tradições — a sua "pré-compreensão" inevitável —, ocorrendo a fusão de horizontes entre o sujeito e a obra1. Paralelamente, no mundo anglo-saxão, Dworkin desenvolveu a tese do Direito como Integridade e o construtivismo interpretativo, sugerindo que juízes assemelham-se a autores de um romance em cadeia (chain novel), limitados não apenas pelo silogismo, mas obrigados a escolher as melhores justificações políticas e morais consagradas na história institucional da comunidade, vedando o subjetivismo discricionário2.


Embora fenomenais em diagnosticar a presença do sujeito-intérprete, tais teorias ganham concretude analítica insuperável quando lidas através da praxiologia e do arcabouço metodológico da Escola da Análise Econômica e Constitucional (como James Buchanan e Richard Posner abordaram, mas com viés utilitarista focado na eficiência sistêmica e não apenas no axioma da ação estrutural)36.


A análise das Ciências Jurídicas através da lente praxiológica ganha a seguinte dimensão comparativa e sistêmica:


Dimensão Interinstitucional

Visão Positivista Tradicional

Nova Abordagem Praxiológica e Contextual

A Decisão Judicial

Exercício mecânico, silogístico, estrito e dedutivo da letra da lei ao fato (Juiz como a "boca da lei").

Ação humana intencional do julgador, tomada sob condições reais de escassez de dados, refletindo valoração marginal36.

A Norma Constitucional

Entidade abstrata perfeita, comando lógico-formal (Se A, logo B) que provê garantias per si.

Estrutura institucional (Regra do Jogo) que baliza a legitimidade, cria custos de oportunidade e molda incentivos à conduta31.

O Trabalho Hermenêutico

Descoberta do "sentido verdadeiro, real e abstrato" escondido dentro da sintaxe da norma.

Ponderação a posteriori visando utilidade prática, revelando a coerência ideológico-material e viabilidade dos resultados no mundo fenomênico.

A Ordem Social e Econômica

Edifício construído, planejado e mantido unilateralmente pelos poderes coercitivos do Estado.

Ordem espontânea viva e complexa, resultante de microinterações intergeracionais condicionadas pelas balizas de custos31.



7.1 Implicações Diretas no Conceito de Norma e Autoridade


A lei nunca atua no vácuo. Ao emitir um ato normativo, o Estado não elimina magicamente realidades; ele simplesmente adiciona um novo custo de oportunidade, alterando a estrutura de utilidade marginal percebida pelos atores sociais, podendo gerar consequências funestas se revogar as leis naturais da ação (como o desabastecimento em tentativas de congelamento de preços).


O legislador ou magistrado que aplica a norma constitucional é um Agente Praxiológico24. (destacou-se) Sua decisão não decorre de revelação divina. Em uma colisão de princípios magnos (como a tensão entre o direito irrestrito de propriedade e a função social, ou entre a liberdade de expressão e a preservação da imagem), o julgador realiza um sopesamento axiológico de utilidade marginal no limite da escassez processual. A sua decisão buscará entregar, segundo as suas convicções mais arraigadas, o estado considerado de "maior satisfação" para a ordem política. A ilusão positivista é sepultada: a neutralidade axiológica absoluta é logicamente impossível.


7.2 O Novo Paradigma: O Método Finalístico-Biográfico


Diante desse reconhecimento radical da humanidade inafastável do julgador, surge a necessidade de estabelecer uma barreira que evite a degeneração da justiça em tirania arbitrária do subjetivismo solipsista. Para tanto, formula-se o método "Finalístico-Biográfico". (destacou-se)


No modelo constitucional das grandes democracias republicanas (notadamente, a indicação para as Cortes Supremas), os agentes públicos de cúpula não são selecionados por sorteio aleatório, nem submetem-se a testes puramente lógico-matemáticos44. O trâmite institucional de escrutínio e sabatina democrática pelo Parlamento consiste na exata validação da ontologia heurística do viés ideológico do indicado. A biografia do candidato — o histórico de suas obras jurídicas, votos, discursos e crenças — é minuciosamente inspecionada pela representação popular. Logo, ao ser aprovado, o seu viés não é um "defeito" a ser ocultado, mas uma perspectiva chancelada pelas "regras do jogo".


O método Finalístico-Biográfico (destacou-se) propõe que a legitimidade jurídica de uma decisão constitucional no caso concreto não se aufere apenas pela sua aparência dogmática ou retórica, mas pela obrigatoriedade da simetria ideológica. O intérprete deve convalidar sua interpretação buscando resultados finalísticos que estejam inequivocamente amparados em seu viés e no histórico de suas decisões pretéritas, pelos quais ele foi escolhido.

O que ocorre, no entanto, quando a autoridade subverte esse mandamento? Caso um magistrado — historicamente um purista garantista, que angariou apoio e ascendeu ao cargo graças a esse compromisso biográfico manifesto —, passe subitamente a atuar, sem motivação estrita atrelada a uma absoluta distinção factual (distinguishing rigoroso), como um flexibilizador penal radical com vistas a atingir um adversário político do momento, ele incide no que passamos a chamar de “Tresdestinação Ideológica”. (destacou-se)


Nesta hipótese grave, o magistrado não efetuou uma simples "mudança legítima de jurisprudência". As decisões e posicionamentos apriorísticos e ideológicos que permitiram a sua investidura o vinculam eticamente perante a função jurisdicional e perante o contrato social que embasou as regras do jogo. Transmutar seu entendimento sem base fática disruptiva (agir contrariamente aos seus vieses pretéritos consagradores) retira a higidez da decisão. Sob o imperativo da ação praxiológica — que atesta que o magistrado age com um fim utilitário —, essa ruptura indica que o ato jurisdicional está sendo instrumentalizado não para a pacificação sistêmica calcada nas regras prévias, mas para finalidades dissimuladas ou espúrias.


A consequência estrutural imposta pelo método Finalístico-Biográfico é taxativa: a nulidade do ato decisório viciado por tresdestinação ideológica, já que o seu fundamento não advém da livre e regular convicção garantida pelas regras constitucionais, mas do arbítrio travestido de jurisdição.



8. CONSEQUÊNCIAS PRÁTICAS: IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA E CRIME DE RESPONSABILIDADE


A transposição deste inédito marco hermenêutico não estaria completa sem o espelhamento nas consequências sancionadoras concretas perante a dogmática nacional, notadamente nos pilares da improbidade administrativa e no regime dos crimes de responsabilidade.


A promulgação da Lei nº 14.230/2021 produziu uma revolução no sistema de responsabilização da Lei nº 8.429/1992 (Lei de Improbidade Administrativa - LIA). Visando blindar o administrador e os agentes públicos de perseguições lastreadas em atos inábeis, mas desprovidos de má-fé, a reforma legislativa extinguiu sumariamente a figura da improbidade culposa45. A jurisprudência pátria, reverberando o comando peremptório do novo art. 1º, § 2º e § 3º, e a revisão do caput do art. 11, determinou que qualquer subsunção por atos que atentam contra os princípios da Administração Pública demanda a prova inequívoca e autônoma do "Dolo Específico"47 (no qual sabemos, para os demais, fins, se tratar de "elemento subjetivo do dolo", com base na teoria da culpa normativa, mas chamaremos, como metomínia, de "dolo específico", vezes que a própria jurisprudência do Supremo Tribunal Federal faz alusão ao termo para tais fins práticos...). Não basta mais o mero dolo genérico ou a conduta voluntária; exige-se a demonstração da especial intenção desonesta ("o fim ilícito") do agente de violar os deveres da legalidade, lealdade e imparcialidade às instituições, amoldando-se ao rol taxativo da lei45.


É exatamente na intersecção entre o Dolo Específico imposto pela Lei nº 14.230/2021 e o desvio apurado pelo Método Finalístico-Biográfico que repousa a responsabilidade do hermeneuta. A autoridade judiciária ou administrativa que prolata uma decisão viciada por Tresdestinação Ideológica manifesta, inescapavelmente sob as leis da ação humana (praxiologia), uma vontade livre, consciente e direcionada a finalidades apartadas da integridade institucional. A ruptura abrupta, imotivada (sem distinguishing razoável) e casuística de sua própria biografia e coerência teórica anterior não caracteriza "mero erro exegético" ou "interpretação discricionária admissível". Traduz, por via direta, a exteriorização material do dolo específico de manipular os signos da lei (norma) com o escopo inconfessável de atender a imperativos utilitários alheios ao cargo (perseguir desafetos, blindar aliados, alavancar projetos pessoais espúrios). Trata-se, portanto, do uso distorcido da ferramenta hermenêutica que deságua irremediavelmente na tipificação de ato de improbidade por violação manifesta à imparcialidade (Art. 11), sujeitando o infrator às graves sanções civis, multa e perda do cargo público.


Por extensão axiológica, a blindagem democrática alcança patamares ainda mais sensíveis na esfera macro-política. A Lei nº 1.079/1950 disciplina o regime de Crimes de Responsabilidade, preceituando as infrações político-administrativas de magistrados das altas cortes, governantes e membros de tribunais44. Conquanto a tradição nacional rejeite o impeachment fundamentado unicamente na "mera discordância com a hermenêutica empreendida" pelo magistrado (protegendo a independência da jurisdição interna corporis)52, o rompimento ideológico exposto neste estudo escapa ao resguardo da liberdade decisória.


A distorção voluntária do arcabouço de ideias que lastrearam a sabatina e aprovação do ministro/magistrado constitui a quebra do acordo cívico basilar. Quando a subversão da regra do jogo torna-se reiterada e o uso do cargo transveste os limites das teorias do poder, evidenciando o uso político do instrumental jurídico em colisão proposital e arbitrária com a biografia chancelada pelo Estado Democrático, delineia-se materialmente uma violação manifesta aos deveres constitucionais, abrindo margens inquestionáveis para processos de cassação ou, na vigência de inovações e aperfeiçoamentos legislativos oriundos do Parlamento e baseados nesse novo paradigma realista, para a caracterização explícita e moderna da tresdestinação hermenêutica como grave Crime de Responsabilidade.



9. CONSIDERAÇÕES FINAIS


O presente estudo demonstrou, pela reconstrução ontológica e epistemológica do problema hermenêutico, que a insistência em modelos de ficção jurídica — onde a letra da norma é purista e o juiz é isento de contornos volitivos humanos — perpetua a disfuncionalidade sistêmica que assola as instituições. Reconhecer, nos rigores delineados por Kant e pela semiótica essencialista, que lidamos com fenômenos e signos imperfeitos sob a lente inafastável de nossa consciência constitui o primeiro passo em direção à segurança jurídica realista.


No entanto, é com a incorporação definitiva do axioma da Ação Humana da praxiologia misesiana e seus postulados de escassez e utilidade marginal nas escolhas institucionais, que a ciência jurídica transcende a mera abstração teórica. Ao compreender o magistrado como agente e a lei como estrutura moldadora de incentivos, o campo jurídico atinge, pela metodologia "Finalístico-Biográfica", a maturidade imprescindível às nações desenvolvidas.


A integridade do Estado Constitucional de Direito exige predição institucional. Se o viés ideológico de uma autoridade é submetido ao crivo da democracia quando de sua indicação, as suas ações estão perenemente vinculadas ao pacto firmado nesse ato formador. A quebra injustificada desta simetria não é demonstração de saber jurídico livre; constitui apropriação indevida do poder, desvio volitivo caracterizado como tresdestinação ideológica que, de forma robusta e cientificamente lastreada, subsume-se perfeitamente aos contornos dogmáticos do dolo específico exigidos para condenação sob o império da Lei de Improbidade (Lei nº 14.230/2021), e fundamenta, política e moralmente, as tipificações gravosas da destituição da autoridade da República. (destacou-se)


A "Pré Compreensão Praxiológica" consolida-se, portanto, não apenas como uma ferramenta hermenêutica ou acadêmica, mas como um preceito de salvação da coerência republicana ante a complexidade comportamental da modernidade.(destacou-se)




Este artigo tem fins estritamente acadêmicos e jurídicos, submetido aos parâmetros da pesquisa dogmática e institucional aplicável à ciência do Direito, visando debater inovações metodológicas da teoria hermenêutica, não constituindo conselho jurídico individual.



Referências:

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  2. a crítica hermenêutica do direito e a questão da - Esmarn, https://www.esmarn.tjrn.jus.br/revistas/index.php/revista_direito_e_liberdade/article/viewFile/1181/684

  3. Praxeologia e compreensão: a lógica da ação humana como ciência, https://www.institutoliberal.org.br/resenhas/praxeologia-e-compreensao-a-logica-da-acao-humana-como-ciencia/

  4. Ação HumAnA - Instituto Rothbard Brasil, https://rothbardbrasil.com/wp-content/uploads/arquivos/acao-humana.pdf

  5. Epistemological Problems of Economics (1933, 2013), https://oll.libertyfund.org/titles/mises-epistemological-problems-of-economics-1933-2013

  6. Carl F. Graumann Auth., Joseph R. Royce, Leendert P. Mos Eds, https://www.scribd.com/document/348274510/Carl-F-Graumann-Auth-Joseph-R-Royce-Leendert-P-Mos-Eds-Humanistic-Psychology-Concepts-and-Criticisms

  7. Problems in Value Theory: An Introduction to Contemporary, https://dokumen.pub/problems-in-value-theory-an-introduction-to-contemporary-debates-1nbsped-9781350147386-9781350147393-9781350147409-9781350147416.html

  8. Existential Values and Insights in Western and Eastern Management, https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC8384462/

  9. (PDF) Interaction for Design: A theoretical framework for contextual, https://www.academia.edu/3133823/Interaction_for_Design_A_theoretical_framework_for_contextual_collaboration

  10. Plato's Allegory of the Cave and Theory of the Forms Explained, https://factmyth.com/platos-allegory-of-the-cave-and-theory-of-the-forms-explained/

  11. Plato's Allegory of the Cave - - Pop Culture Madness, https://popculturemadness.com/platos-allegory-of-the-cave/

  12. Allegory Of The Cave - Eric Roth, https://ericroth.org/fiction/allegory-of-the-cave/

  13. Crítica da Razão Pura – Wikipédia, a enciclopédia livre, https://pt.wikipedia.org/wiki/Cr%C3%ADtica_da_Raz%C3%A3o_Pura

  14. CRÍTICA DA RAZÃO PURA Immanuel Kant - ISPSN, https://www.ispsn.org/sites/default/files/documentos-virtuais/pdf/livro_-_immanuel_kant_-_a_critica_da_razao_pura.pdf

  15. Na crítica da razão pura do Kant, como a estética transcendental, a, https://www.reddit.com/r/askphilosophy/comments/gh507a/in_kants_critique_of_pure_reason_how_are_the/?tl=pt-br

  16. Why would Kant mention noumena at all, in his metaphysics, if we, https://www.reddit.com/r/askphilosophy/comments/25i58b/why_would_kant_mention_noumena_at_all_in_his/

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  18. NA CRÍTICA DA RAZÃO PURA - SciELO, https://www.scielo.br/j/trans/a/fhf8TtyJrvcBx3gYqvFQHnH/?lang=pt&format=pdf

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  20. A Estrutura das Revoluções Científicas - Wikipédia, https://pt.wikipedia.org/wiki/A_Estrutura_das_Revolu%C3%A7%C3%B5es_Cient%C3%ADficas

  21. Psychologism, Praxeology and Thymology in the Work of Ludwig, https://www.researchgate.net/publication/413537614_Psychologism_Praxeology_and_Thymology_in_the_Work_of_Ludwig_von_Mises_A_Methodological_Inquiry

  22. Social Laws, Part 7 | Libertarianism.org, https://www.libertarianism.org/columns/social-laws-part-7

  23. Praxeology - Libertarianism.org, https://www.libertarianism.org/encyclopedia/praxeology

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  26. Introduction to the Third Edition: From Value Theory to Praxeology, https://mises.org/online-book/epistemological-problems-economics/introduction-third-edition-value-theory-praxeology

  27. MISESIAN EPISTEMOLOGY | Torsell | MEST Journal, https://www.meste.org/ojs/index.php/mest/article/view/863

  28. Ludwig von Mises: as Bases de sua Epistemologia e uma Proposta, https://periodicos.fgv.br/bjpe/article/download/95909/89379/222920

  29. As principais contribuições da Escola Austríaca, https://mercadopopular.org/uncategorized/as-principais-contribuicoes-da-escola-austriaca/

  30. The Austrian School of Economics as a Popperian Research paper, http://www.the-rathouse.com/rc_popperpaper.html

  31. The Political Economy of Cultural Conservatism, https://www.heritage.org/political-process/report/the-political-economy-cultural-conservatism

  32. O que a lei da utilidade marginal decrescente pode nos ensinar?, https://mises.org.br/artigos/757/oquealeidautilidademarginaldecrescentepodenosensinar/

  33. Prêmio Nobel para a praxeologia - Instituto Mises Brasil, https://mises.org.br/artigos/1293/premionobelparaapraxeologia/

  34. As Leis Fundamentais da Economia - Universidade Libertária, https://universidadelibertaria.com.br/as-leis-fundamentais-da-economia/

  35. integrating Behavioral Economics and Praxeology, https://behaviorandlawjournal.com/BLJ/article/download/116/134

  36. (PDF) Buchanan's constitutional political economy: Exchange vs, https://www.researchgate.net/publication/24008267_Buchanan's_constitutional_political_economy_Exchange_vs_choice_in_economics_and_in_politics

  37. Value and Exchange in Law and Economics: Buchanan versus Posner, https://www.bemservizi.unito.it/repec/icr/wp2006/ICERwp31-06.pdf

  38. The Oxford Handbook of Law and Economics: Volume 1, https://dokumen.pub/the-oxford-handbook-of-law-and-economics-volume-1-methodology-and-concepts-online-versionnbsped-019968426x-9780199684267.html

  39. Revisão para o ENAM 2025: Humanística e Direito | PDF - Scribd, https://pt.scribd.com/document/859553715/Nao-Faca-o-Enam-Sem-Saber-2025-Parte-2

  40. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo CARLOS GUSTAVO, https://repositorio.pucsp.br/jspui/bitstream/handle/41142/1/Carlos%20Gustavo%20Visconti.pdf

  1. FILOSOFIA DO DIREITO E HERMENÊUTICA FILOSÓFICA, https://repositorio.ufmg.br/server/api/core/bitstreams/a55e7f8f-185f-454e-a27d-2be023aded08/content

  2. Pluralism of competition policy paradigms and the call for regulatory, https://www.econstor.eu/bitstream/10419/29863/1/506389952.PDF

  3. Impeachment de Ministro do STF: Entenda a Lei e o Processo, https://legale.com.br/blog/impeachment-de-ministro-do-stf-entenda-a-lei-e-o-processo/

  4. ESTADO DO CEARÁ PODER JUDICIÁRIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA, https://esaj.tjce.jus.br/cjsg/getArquivo.do?cdAcordao=3587361&cdForo=0

  5. Ementário 05/2026 - Lei de improbidade administrativa - TJDFT, https://www.tjdft.jus.br/consultas/jurisprudencia/jurisprudencia-em-temas/ementario-eletronico-tematico/ementario-05-2026-lei-de-improbidade-administrativa

  6. Intranet - Tribunal de Justiça do Paraná - jurisprudencia - TJPR, https://portal.tjpr.jus.br/jurisprudencia/j/4100000017660681/2]

  7. ADMINISTRATIVO E PROCESSUAL CIVIL. EMBARGOS DE, https://scon.stj.jus.br/SCON/GetInteiroTeorDoAcordao?num_registro=201800402827&dt_publicacao=11/02/2025

  8. Jurisprudência - Buscador Dizer o Direito, https://buscadordizerodireito.com.br/jurisprudencia?criterio-pesquisa=e&palavra-chave=tema&categoria=2&subcategoria=23&assunto=815&forma-exibicao=todos

  9. Improbidade: Dolo e Dano Efetivo na Nova LIA - Legale Educacional, https://legale.com.br/blog/improbidade-dolo-e-dano-efetivo-na-nova-lia/

  10. ADPF-1259-MC.pdf - AWS, https://noticias-stf-wp-prd.s3.sa-east-1.amazonaws.com/wp-content/uploads/wpallimport/uploads/2025/12/03092559/ADPF-1259-MC.pdf

  11. Impeachment de ministros do STF - JOTA, https://www.jota.info/opiniao-e-analise/artigos/impeachment-de-ministros-do-stf

 
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