O mínimo que você precisa saber para falar sobre qualquer coisa com qualquer pessoa.
- Adam Telles de Moraes

- 9 de ago. de 2025
- 17 min de leitura

O mínimo que você precisa saber para falar sobre qualquer coisa com qualquer pessoa.
ADAM TELLES DE MORAES
Habilitação Nacional de Advogado
Ordem dos Advogados do Brasil
(Código da credencial: 155744/RJ)
Professional development certificate in Global Business Management
Massachusetts Institute of Business - MIB
(Código de credencial 7F40D3D8-0AF7-4F30-AFFE-38B39EC7ECD3)
Resumo
A proliferação de informações na era digital desafia a capacidade humana de discernir conhecimento válido, transformando o diálogo em uma arena de opiniões desconexas. Este artigo propõe uma estrutura intelectual fundamental para o engajamento em conversas construtivas sobre qualquer tema. Por meio de uma análise interdisciplinar, o estudo explora as distinções essenciais entre conceitos da metodologia científica (fato, lei e teoria), os fundamentos da epistemologia (conhecimento a priori e a posteriori), a natureza dos problemas (científicos e lógicos), e os princípios da ética argumentativa (Imperativo Categórico e ética do discurso). O objetivo é demonstrar que a capacidade de dialogar com profundidade não reside no domínio de fatos isolados, mas na compreensão dos diferentes domínios de saber e de suas regras de validação. Conclui-se que a clareza epistemológica, aliada a um arcabouço ético robusto, constitui a base indispensável para uma comunicação eficaz e para a construção de um pensamento crítico sólido.
Palavras-chave: Metodologia Científica; Epistemologia; Ética Argumentativa; Filosofia do Direito; Teoria do Conhecimento.
Abstract
The proliferation of information in the digital age challenges the human capacity to discern valid knowledge, transforming dialogue into an arena of disconnected opinions. This article proposes a fundamental intellectual framework for engaging in constructive conversations on any topic. Through an interdisciplinary analysis, the study explores the essential distinctions between concepts of scientific methodology (fact, law, and theory), the foundations of epistemology (a priori and a posteriori knowledge), the nature of problems (scientific and logical), and the principles of argumentative ethics (Categorical Imperative and discourse ethics). The objective is to demonstrate that the ability to engage in profound dialogue does not lie in the mastery of isolated facts but in understanding the different domains of knowledge and their rules of validation. It is concluded that epistemological clarity, combined with a robust ethical framework, constitutes the indispensable basis for effective communication and the construction of solid critical thinking.
Keywords: Scientific Methodology; Epistemology; Argumentative Ethics; Philosophy of Law; Theory of Knowledge.
1 INTRODUÇÃO
A contemporaneidade é marcada por uma paradoxal abundância de informação e, ao mesmo tempo, por uma crescente superficialidade no diálogo. As plataformas digitais e a mídia globalizada fornecem um fluxo incessante de dados, mas a capacidade de estruturar esse conhecimento em argumentos coerentes e significativos parece cada vez mais escassa. Debates complexos são frequentemente reduzidos a confrontos de crenças ou a apropriações equivocadas de termos técnicos, evidenciando uma lacuna fundamental: a falta de uma base intelectual compartilhada sobre como se estrutura o conhecimento e como validar a qualidade de um argumento.
A premissa deste artigo é que a maestria de um assunto não é uma questão de memorização de dados, mas sim da compreensão de seu regime de saber e de suas regras de validação. O indivíduo que deseja se posicionar de forma informada e respeitosa em qualquer conversa deve possuir um "mínimo" de ferramentas mentais para identificar a natureza do tema em pauta, aplicar a metodologia de análise apropriada e, sobretudo, sustentar uma postura ética e racional no discurso.
Com o objetivo de construir esse arcabouço intelectual, este trabalho seguirá uma progressão lógica. Inicialmente, serão delineadas as bases da metodologia científica e da epistemologia, distinguindo conceitos cruciais como fato, lei e teoria, e as formas de conhecimento a priori e a posteriori. Em seguida, será analisada a distinção entre problemas científicos e paradoxos lógicos, usando o exemplo do problema dos três corpos. Por fim, o foco se voltará para a filosofia moral e a ética do discurso, explorando como os princípios kantianos e habermasianos fornecem o alicerce ético para o diálogo interpessoal. A união desses domínios teóricos oferece uma bússola intelectual robusta, capaz de guiar a mente através da complexidade do mundo moderno e de elevar o nível das conversas cotidianas.
2 DA METODOLOGIA CIENTÍFICA À ESTRUTURA DO CONHECIMENTO
A ciência, como empreendimento humano para compreender o universo empírico, desenvolveu uma metodologia rigorosa para organizar e validar o conhecimento. A compreensão dessa estrutura é o primeiro passo para um pensamento crítico e para a distinção entre o que é uma mera observação, uma descrição padronizada e uma explicação profunda.
2.1 O Legado da Ciência: Fato, Teoria e Lei
A confusão entre termos como "fato", "teoria" e "lei" é generalizada no discurso popular, mas na ciência, essas categorias têm definições precisas e não são etapas de um processo hierárquico.
Um fato científico é uma observação verificada e confirmada. Uma lei científica, por sua vez, é uma descrição concisa e matemática de um fenômeno que ocorre sob certas condições. As leis descrevem o que acontece, baseadas em observações e experimentos repetidos. Por exemplo, a Lei da Gravidade de Newton descreve como os objetos se atraem mutuamente e é responsável pela queda de uma maçã ao chão, mas não explica o mecanismo subjacente dessa força.1
A teoria científica, em contraste, é uma explicação bem testada e amplamente aceita de fenômenos naturais. Ela se baseia em um vasto conjunto de evidências e é capaz de fazer previsões. Diferentemente das leis, que descrevem o "o que," as teorias explicam o porquê dos eventos. A Teoria da Evolução, por exemplo, explica como as espécies mudam ao longo do tempo, enquanto a Teoria da Relatividade Geral de Einstein oferece uma explicação para a gravidade.1 A Teoria da Relatividade Geral postula que o efeito da gravidade entre massas é o resultado da curvatura do espaço-tempo que elas causam, refinando a lei de Newton e explicando anomalias observadas na órbita de Mercúrio, algo que a lei newtoniana não era capaz de fazer.4
A progressão do conhecimento sobre a gravidade é um exemplo didático da relação entre lei e teoria. A Lei de Newton não foi descartada; ela se mantém válida como uma descrição precisa da gravidade em cenários cotidianos. A Teoria da Relatividade Geral, no entanto, fornece um modelo explicativo mais completo, profundo e universal. O avanço científico não é meramente a substituição do falso pelo verdadeiro, mas frequentemente a substituição de uma explicação por outra mais abrangente e precisa, mantendo a descrição original como um caso especial. A compreensão dessa dinâmica é crucial para evitar o erro comum de tratar uma teoria como uma "lei não provada".
A seguir, a Tabela 1 resume as distinções conceituais fundamentais para a estrutura do conhecimento científico.
Conceito | Definição | Exemplo | Status Epistemológico |
Fato Científico | Uma observação verificada e confirmada | Uma maçã cai em direção à Terra | Descrição pontual |
Lei Científica | Descreve um fenômeno ('o que acontece') | Lei da Gravitação Universal de Newton | Modelo descritivo, universal em seu domínio |
Teoria Científica | Explica o motivo de um fenômeno ('por que acontece') | Teoria da Relatividade Geral de Einstein | Modelo explicativo, preditivo e testável |
2.2 O Processo de Validação: Reprodução, Hipótese e Crise
O método científico é um processo que se inicia com a formulação de uma hipótese (uma possível resposta a uma questão), que deve ser testada e validada por meio de experimentação.6 No cerne desse processo, encontra-se o princípio da reprodutibilidade, a capacidade de um experimento ser replicado por outros pesquisadores com resultados consistentes.7 A reprodutibilidade é a pedra angular da pesquisa confiável, pois promove a transparência metodológica e fortalece a base do conhecimento científico.
A importância desse princípio foi acentuada pela chamada "crise da reprodutibilidade" em diversas áreas da ciência. Em 2015, o Center for Open Science anunciou que apenas 39 de 100 estudos publicados em psicologia puderam ser confirmados.8 No campo da Inteligência Artificial (IA), a incapacidade de replicar resultados em 62 estudos sobre o diagnóstico de COVID-19 por IA também chamou a atenção para a necessidade de reavaliar as práticas de pesquisa.7 A ausência de resultados reproduzíveis não significa que a ciência esteja fundamentalmente errada. Pelo contrário, ela aponta para a existência de um sistema auto-corretivo que, ao expor falhas metodológicas ou pressões editoriais por resultados "positivos" e publicáveis, exige um aprimoramento das práticas. Nesse sentido, a reprodutibilidade atua como uma espécie de "due diligence" do conhecimento, uma auditoria rigorosa que garante a validade e a transparência das descobertas.
2.3 A Fundamentação do Saber: A Priori e a Posteriori
Immanuel Kant estabeleceu uma distinção filosófica fundamental para a epistemologia que serve como guia para a organização do pensamento. O conhecimento a priori é aquele que é justificado independentemente da experiência. Ele é caracterizado pela universalidade e pela necessidade; para se determinar sua verdade, basta uma análise de conceitos. A matemática ("2 + 2 = 4") e a lógica ("ou está chovendo ou não está chovendo") são exemplos clássicos de conhecimento a priori, pois sua validade não depende da observação do mundo empírico.9
O conhecimento a posteriori, em contrapartida, é aquele que depende intrinsecamente da experiência e da observação para ser justificado. As ciências empíricas, como a física e a biologia, são o domínio do conhecimento a posteriori, pois suas teorias precisam ser testadas por meio de experimentos ou observações do mundo real para ter sua verdade confirmada.9
A implicação dessa distinção para o diálogo é profunda. Confundir o domínio de um argumento é um erro categórico que inviabiliza o debate. Tentar refutar um teorema matemático (a priori) com evidências empíricas (a posteriori) é tão inútil quanto tentar provar a existência de uma partícula subatômica através de um raciocínio puramente lógico. O domínio de um argumento impõe as regras de sua validação. A compreensão dessa fronteira epistemológica permite ao interlocutor identificar os limites de cada tipo de saber, direcionando a discussão para o campo apropriado.
3 PROBLEMAS LÓGICOS E FÍSICOS NA PRÁTICA DO PENSAMENTO
A capacidade de distinguir entre um problema e um paradoxo é um passo crucial para um raciocínio eficaz. Frequentemente, termos como "irresolúvel" ou "caótico" são usados no senso comum sem a devida precisão, levando a interpretações equivocadas.
3.1 O Problema dos Três Corpos: Do Caos Físico ao Erro Lógico
O problema dos três corpos é uma questão clássica da mecânica, que busca calcular as trajetórias de três massas que interagem gravitacionalmente entre si.13 É popularmente conhecido como "insolúvel", mas essa definição carece de precisão. O problema é "insolúvel" no sentido de que não existe uma solução geral em forma fechada, ou seja, uma equação matemática simples que possa descrever as trajetórias para qualquer configuração inicial. A maioria das configurações do problema dos três corpos é caótica, o que torna as previsões de longo prazo extremamente sensíveis a pequenas variações nas condições iniciais.13
Contudo, a inexistência de uma solução geral não significa que soluções específicas não existam ou que o problema seja logicamente impossível. É possível modelar as trajetórias com computadores, usando métodos numéricos, e existem casos especiais com soluções analíticas, como as descobertas de Euler e Lagrange.13 A popularidade do tema, especialmente com a série e o livro O Problema dos Três Corpos, demonstra como a complexidade científica pode ser utilizada em narrativas ficcionais.16 No entanto, é importante notar que sistemas de três corpos na realidade, como o sistema estelar Alpha Centauri, podem ser surpreendentemente estáveis.15 A real complexidade não é um paradoxo, mas uma característica inerente a um sistema físico caótico que resiste a uma análise simples.14
3.2 Distinção entre Problema e Paradoxo: A Lógica por Trás da Contradição
Diferentemente de um problema científico, um paradoxo lógico não é uma questão de complexidade física, mas sim uma contradição inerente a um sistema de raciocínio. Um paradoxo é uma contradição deduzida de premissas que são geralmente aceitas como verdadeiras, ou seja, um impasse na lógica.18 Um exemplo clássico é o Paradoxo do Barbeiro, uma versão simplificada do Paradoxo de Russell. O paradoxo afirma: "Em uma dada cidade, existe um barbeiro que corta a barba de todos os homens que não cortam a sua própria barba. Este barbeiro corta a sua própria barba?".19 A questão não tem solução: se ele cortar a própria barba, viola a regra de só cortar a barba dos que não a cortam. Se não a cortar, se encaixa no grupo dos homens cuja barba ele deve cortar. A impossibilidade de resposta não é um problema empírico, mas uma falha na lógica de conjuntos que define a premissa.
Compreender a diferença entre o problema dos três corpos (um problema científico com uma solução caótica, mas existente) e o paradoxo do barbeiro (uma contradição lógica que exige a reavaliação de premissas) é fundamental. Esse discernimento permite ao indivíduo aplicar as ferramentas de análise corretas, evitando o erro de tentar solucionar um impasse lógico com ferramentas da física, ou vice-versa.
4 ÉTICA E ARGUMENTAÇÃO: A BASE DO DIÁLOGO INTERPESSOAL
A compreensão das estruturas do conhecimento deve ser complementada por uma ética da argumentação. A forma como nos comunicamos e buscamos o consenso é tão importante quanto a validade factual do que dizemos. A filosofia moral oferece um alicerce para a construção de um diálogo justo e produtivo.
4.1 A Moralidade Incondicional: O Imperativo Categórico de Kant
O Imperativo Categórico de Immanuel Kant é uma lei moral universal e incondicional, baseada na razão, que deve ser seguida independentemente das consequências ou inclinações pessoais.20 Sua fórmula mais conhecida é: "Age apenas de acordo com uma máxima que possas ao mesmo tempo querer que se torne uma lei universal".20 A aplicação desse princípio pode ser estendida da filosofia moral para a ética da argumentação.
O cerne do pensamento kantiano é que uma ação só é moralmente válida se a regra subjacente (a "máxima") puder ser universalizada sem contradição. No contexto do diálogo, um argumento só é eticamente válido se a sua base de raciocínio puder ser universalmente aceita por todos os participantes da conversa. A exigência de universalidade força os interlocutores a transcenderem seus interesses particulares e a se engajarem em um debate calcado na razão. O Imperativo Categórico, assim, oferece um modelo para uma discussão na qual a validade não é determinada pela força da autoridade ou pela emoção, mas pela universalidade lógica dos princípios que a sustentam.
4.2 A Ética do Discurso de Habermas e Apel
A ética do discurso, desenvolvida por filósofos como Jürgen Habermas e Karl-Otto Apel, leva o princípio kantiano para o campo da interação social. O foco se desloca do agente moral solitário para a comunidade de comunicação intersubjetiva.22 A premissa central é que o consenso moral não é alcançado por um monólogo racional, mas por um diálogo livre de coação. A validade de uma norma ética é estabelecida através de um processo argumentativo, onde todos os afetados pela norma têm a oportunidade de participar em condições de igualdade.22
Embora Habermas e Apel compartilhem a mesma base, suas abordagens se distinguem em pontos de detalhe. Apel, por exemplo, criticou Habermas por uma suposta "neutralização moral" do princípio do discurso, que Apel considerava crucial para a fundamentação do direito.23 Essas nuances demonstram a complexidade e a profundidade do tema. Para o propósito deste artigo, a ética do discurso é a ferramenta prática para a gestão do diálogo em um mundo plural. A negociação de conflitos e a formação de consensos em ambientes complexos, como o corporativo ou o jurídico, exigem um entendimento compartilhado das regras do jogo e a busca por um acordo intersubjetivo, o que é o cerne da ética do discurso.
5 CIÊNCIA, FÉ E A ARTE DO DIÁLOGO
A relação entre ciência e fé é um dos temas mais férteis, mas também mais controversos, do debate contemporâneo. A capacidade de dialogar sobre essa questão depende crucialmente de um entendimento claro das distinções epistemológicas e da evolução dos modelos de interação entre esses dois domínios do saber.
5.1 Ciência e Fé: Distinções Epistemológicas e Existenciais
A diferença fundamental entre ciência e fé reside em suas metodologias de validação do conhecimento. Na ciência, a abordagem é "ver para crer": a observação da natureza e a obtenção de dados precedem e validam a compreensão.24 A ciência se alimenta da dúvida e do esforço contínuo de refutação e teste de suas hipóteses.25 A fé, por outro lado, opera sob a lógica de "crer para ver": a crença precede a experiência e, em última análise, a validação não depende de experimentos empíricos, mas da certeza daquilo que não se vê.24
A distinção é mais sobre domínios e metodologias do que sobre uma disputa por "verdades". A ciência é uma maneira de se relacionar com a realidade empírica, enquanto a fé é uma maneira de se relacionar com a realidade existencial, moral e espiritual. O erro de raciocínio mais comum é tentar aplicar as regras de validação de um domínio ao outro, por exemplo, tentar provar a existência de Deus com um experimento científico ou refutar a teoria da evolução com uma interpretação literal de um texto sagrado. Um diálogo maduro sobre o tema exige o reconhecimento de que ciência e fé são "maneiras diferentes de se relacionar com a realidade".24
5.2 Modelos de Interação: Conflito vs. NOMA
A história da relação entre ciência e religião foi, por muito tempo, interpretada sob a Tese do Conflito, popularizada no século XIX por John William Draper e Andrew Dickson White. Essa tese argumentava que a história da humanidade é a história de uma guerra intelectual entre a ciência, representando a razão e o progresso, e a religião, vista como um obstáculo à investigação científica e um bastião da superstição.26 No entanto, historiadores da ciência contemporâneos consideram essa visão amplamente desacreditada e simplista, favorecendo um modelo mais complexo de interação, que reconhece tanto o conflito quanto a cooperação ao longo da história.27
Em resposta à Tese do Conflito, o paleontólogo Stephen Jay Gould propôs o modelo dos Magistérios Não-Sobrepostos (NOMA - Non-Overlapping Magisteria). De acordo com o NOMA, a ciência e a religião se ocupam de domínios (magistérios) distintos e não sobrepostos. A ciência lida com o universo empírico e com questões de fato, enquanto a religião lida com questões de significado moral e valor ético.26 Gould argumentou que essa separação de domínios permite uma coexistência pacífica e respeitosa. O NOMA coloca restrições em ambos os lados: se a religião não pode ditar conclusões factuais, a ciência não pode reivindicar uma autoridade superior em questões morais.30
No entanto, críticos como Francis Collins apontam que os magistérios não são completamente separados, mas se "interdigitam" em pontos de intersecção, como a ética da tecnologia genética.29 O entendimento atual evoluiu do NOMA para um modelo de "diálogo" ou "integração," que reconhece a necessidade de conversas construtivas entre os domínios em pontos de convergência, em vez de uma separação estanque. A trajetória da Tese do Conflito para o NOMA e, finalmente, para um modelo de diálogo mais complexo, demonstra a progressão do próprio pensamento humano. O "mínimo" para dialogar sobre ciência e fé não é escolher um lado, mas entender a história, as premissas de cada modelo e reconhecer a necessidade de um diálogo contínuo.
A Tabela 2 resume a evolução dessas perspectivas:
Modelo de Interação | Precursores | Princípio Básico | Status Atual |
Tese do Conflito | John W. Draper, Andrew D. White | Guerra intrínseca entre ciência e religião | Desacreditada pela historiografia moderna |
Magistérios Não-Sobrepostos (NOMA) | Stephen Jay Gould | Separação de domínios; ciência lida com fatos, religião com valores | Ponto de partida para o diálogo; amplamente aceito como base para coexistência |
Modelo de Diálogo/Integração | Perspectivas contemporâneas | Interação e intercâmbio entre os domínios em pontos de convergência | Consenso atual entre estudiosos da relação ciência-religião |
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Em um mundo onde a quantidade de informação ofusca a qualidade do entendimento, o "mínimo" necessário para uma conversação significativa não reside na posse de um vasto repertório de fatos, mas na internalização de uma bússola intelectual. Essa bússola capacita o indivíduo a navegar pelo conhecimento de forma estratégica, permitindo-lhe: (1) discernir a natureza de um argumento (se é científico, lógico ou moral); (2) identificar a metodologia apropriada para sua validação (observação, dedução ou consenso); e (3) aplicar uma ética argumentativa que respeite a razão, a universalidade e a intersubjetividade.
O domínio dessas distinções, da Lei de Newton à Teoria da Relatividade, da irresolubilidade do problema dos três corpos à contradição do paradoxo do barbeiro, e da moralidade kantiana à ética do discurso, não é um fim em si mesmo, mas um meio para um fim mais elevado: a capacidade de participar de debates complexos de maneira informada, humilde e produtiva. Em um cenário onde a polarização e a desinformação representam ameaças substanciais ao tecido social, cultivar esse arcabouço intelectual se torna não apenas uma habilidade pessoal, mas uma responsabilidade cívica essencial para a construção de uma sociedade que valoriza o diálogo informado e a razão como a base de suas decisões.
7 REFERÊNCIAS
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OBSERVAÇÃO
O presente artigo (paper) se trata de um rascunho para os demais fins oficiais e acadêmicos, dependendo de critérios de validação, como análise editorial para publicação em periódicos de autoridade no respectivo segmento científico em exposição, bem como de análise de pares, para convalidação dos fundamentos e argumentos trazidos ao presente artigo.
Referências citadas
Qual é a diferença entre uma lei científica e uma teoria científica? | CK-12 Foundation, acessado em agosto 9, 2025, https://www.ck12.org/flexi/pt-br/ciencias-da-vida/teorias-cientificas/qual-e-a-diferenca-entre-uma-lei-cientifica-e-uma-teoria-cientifica/
TRETA! A GRAVIDADE é uma invenção? Reagi a isso - YouTube, acessado em agosto 9, 2025, https://www.youtube.com/watch?v=ssg2v_qn7B0
Lei da gravitação universal – Wikipédia, a enciclopédia livre, acessado em agosto 9, 2025, https://pt.wikipedia.org/wiki/Lei_da_gravita%C3%A7%C3%A3o_universal
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General relativity - Wikipedia, acessado em agosto 9, 2025, https://en.wikipedia.org/wiki/General_relativity
Método científico: o que é, etapas, exemplos - Brasil Escola, acessado em agosto 9, 2025, https://brasilescola.uol.com.br/quimica/metodo-cientifico.htm
Repensando a reprodutibilidade como a nova fronteira na pesquisa em IA - Unite.AI, acessado em agosto 9, 2025, https://www.unite.ai/pt/rethinking-reproducibility-as-the-new-frontier-in-ai-research/
Reprodução e replicação na pesquisa científica – parte 1 | SciELO em Perspectiva, acessado em agosto 9, 2025, https://blog.scielo.org/blog/2023/05/19/reproducao-e-replicacao-na-pesquisa-cientifica-parte-1/
Conhecimento a priori e a posteriori - Filosofia na Escola, acessado em agosto 9, 2025, https://filosofianaescola.com/conhecimento/a-priori-e-a-posteriori/
A priori e a posteriori - Pensamentos Esquecíveis, acessado em agosto 9, 2025, https://pensamentosesqueciveis.wordpress.com/2018/11/24/a-priori-e-a-posteriori/
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O que é Imperativo Categórico e Hipotético em Immanuel Kant? – - Mundo da Filosofia –, acessado em agosto 9, 2025, https://mundodafilosofia.com.br/o-que-e-imperativo-categorico-e-hipotetico-em-immanuel-kant/
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Marcelo Gleiser: Quando não existe conflito entre ciência e fé - Fronteiras do Pensamento, acessado em agosto 9, 2025, https://www.fronteiras.com/leia/exibir/21-ideias-marcelo-gleiser-e-a-complementaridade-entre-religiao-e-ciencia
A fé da ciência e a ciência da fé | UMNews.org, acessado em agosto 9, 2025, https://www.umnews.org/pt/news/a-fe-da-ciencia-e-a-ciencia-da-fe
Relação entre religião e ciência – Wikipédia, a enciclopédia livre, acessado em agosto 9, 2025, https://pt.wikipedia.org/wiki/Rela%C3%A7%C3%A3o_entre_religi%C3%A3o_e_ci%C3%AAncia
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The Conflict Thesis | Science and the Sacred Class Notes - Fiveable, acessado em agosto 9, 2025, https://library.fiveable.me/science-sacred/unit-1/conflict-thesis/study-guide/pTmcGMAOXWwUlDPz
Non-overlapping magisteria - Wikipedia, acessado em agosto 9, 2025, https://en.wikipedia.org/wiki/Non-overlapping_magisteria
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acessado em dezembro 31, 1969, https://www.praxistas.com.br/post/o-m%C3%ADnimo-que-voc%C3%AA-precisa-saber-para-falar-sobre-qualquer-coisa-com-qualquer-pessoa
Diálogos entre ciência e religião: a temática sob a ótica de futuros professores - SciELO, acessado em agosto 9, 2025, https://www.scielo.br/j/rbeped/a/mnnCPvwFdJTGnpL4qcqgpCH/







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